A instabilidade da articulação radioulnar distal, mais comumente causada pelas lesões do complexo da fibrocartilagem triangular pode levar à dor persistente no lado ulnar do punho, diminuição da força de preensão, restrição da prono-supinação do antebraço e alterações degenerativas progressivas, ressaltando a importância da reconstrução anatômica dessa estrutura.
Com o avanço das técnicas artroscópicas, a reinserção foveal artroscópica da fibrocartilagem triangular surgiu como uma alternativa à cirurgia tradicional aberta visando alcançar a restauração anatômica, minimizando a morbidade cirúrgica e permitindo o tratamento de patologias intra-articulares concomitantes. Há estudos comparando as duas técnicas demonstrando bons resultados de ambos, porém muito heterogêneos e sem demonstrar superioridade de uma técnica em relação à outra.
Diante disso, foi publicado recentemente na revista “BMC Musculoskeletal Disorders” um estudo com o objetivo de avaliar, em pacientes com instabilidade aguda ou crônica da articulação radioulnar distal (ARUD) devido a lesões foveais do complexo da fibrocartilagem triangular (TFCC), a eficácia comparativa da reinserção artroscópica versus aberta da desinserção foveal da TFCC nos resultados funcionais, restauração da estabilidade da ARUD e complicações.

Métodos utilizados
A revisão sistemática pesquisou nas bases de dados PubMed, Scopus e Cochrane estudos desde janeiro de 2000 até abril de 2026 tendo sido incluídos os ensaios clínicos randomizados e estudos de coorte/caso-controle com acompanhamento ≥ 6 meses com adultos (≥ 18 anos) com instabilidade traumática da articulação radioulnar distal (DRUJ) devido à desinserção foveal do complexo fibrocartilaginoso triangular (TFCC) submetidos a reinserção foveal do TFCC, seja por via aberta ou artroscópica.
Os desfechos primários extraídos foram os escores Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand (DASH), Mayo Wrist Score modificado (MMWS) e avaliação do Punho pelo Paciente (PRWE). Os desfechos secundários incluíram dor (EVA/NRS), força de preensão, amplitude de movimento, instabilidade recorrente e complicações (neuropatia do ramo dorsal do nervo ulnar, tendinite do extensor ulnar do carpo).
Quais estudos foram excluídos?
Foram excluídos estudos por: ausência de comparador; dados biomecânicos/cadavéricos/animais; patologia não traumática da articulação radioulnar distal (por exemplo, artrite reumatoide); dados insuficientes; desbridamento isolado do complexo fibrocartilaginoso triangular (TFCC) sem reparo foveal; apenas resumos/relatos de casos/editoriais/revisões/publicações em outros idiomas que não o inglês.
Principais achados
Ao todo, 5 estudos observacionais (nível de evidência II-III; 322 punhos: 181 abertos, 141 artroscópicos) atenderam aos critérios de inclusão. O ROBINS-I classificou dois estudos com risco moderado e três com risco grave de viés e a certeza do GRADE foi baixa a muito baixa em todos os desfechos.
Houve diferença entre as técnicas?
Os resultados agrupados não mostraram diferenças estatísticas: MMWS (SMD − 0,12, IC 95% − 0,47 a 0,23; I² = 0%, τ² = 0; p = 0,719); escore DASH (SMD 0,22, IC 95% − 0,96 a 1,40; I² = 86,7%, τ² = 0,48; p < 0,0001); PRWE (SMD − 0,24, IC 95% − 2,85 a 2,38; I² = 93,3%, τ² = 1,03; p < 0,0001); EVA (SMD − 0,35, IC 95% − 1,69 a 0,99; I² = 89,9%, τ² = 0,63; p < 0,0001); instabilidade recorrente OR (1,00, IC 95% 0,19 a 5,37; I² = 63,2%, τ² = 1,18; p = 0,028). A síntese exploratória de subgrupos restrita a coortes predominantemente crônicas não alterou as estimativas.
O que podemos levar para a prática?
Apesar do estudo sugerir que tanto a reparação aberta quanto a artroscópica da TFCC foveal podem melhorar a função, a dor, a amplitude de movimento, a força de preensão e a estabilidade da articulação radioulnar distal sem superioridade clara de nenhuma das técnicas, é baseado em um pequeno número de estudos não randomizados com heterogeneidade substancial e baixa certeza.
Na prática, o advento da artroscopia gerou a possibilidade da realização do reparo com um menor dano de partes moles gerando mais rápida reabilitação e com possibilidade da visualização e tratamento de outras lesões intra-articulares associadas. Essas variáveis também não foram avaliadas nos estudos citados e devem ser alvos nas próximas pesquisas.
Autoria

Giovanni Vilardo Cerqueira Guedes
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2016. Ortopedista, Cirurgião de Mão e Microcirurgião formado pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO). Mestre em Ciências Aplicadas ao Sistema Musculoesquelético. Atua como Staff do serviço de Cirurgia de Mão do INTO e Professor Substituto de Cirurgia de Mão na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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