Logotipo Afya
Anúncio
Ortopedia24 abril 2026

Quais medicamentos previnem a artrofibrose após artroplastia de joelho?

Saiba quais fármacos reduziram o risco de artrofibrose após artroplastia total de joelho e veja o que o estudo acrescenta à prática ortopédica.
Por Rafael Erthal

A artrofibrose é uma das complicações mais temidas após uma artroplastia total de joelho (ATJ). Caracterizada pela proliferação excessiva de tecido cicatricial intra-articular, ela compromete a amplitude de movimento, causa dor e pode levar a procedimentos adicionais como manipulação sob anestesia ou à liberação artroscópica de aderências. Atingindo cerca de 4% dos pacientes, sua prevenção é um desafio clínico relevante. 

Um grupo de pesquisadores da Mayo Clinic, em parceria com outras instituições americanas, conduziu um estudo retrospectivo de grande escala analisando dados de mais de 358 mil pacientes submetidos a ATJ primária entre 2004 e 2024.  

O objetivo do estudo foi avaliar os efeitos isolados e combinados de quatro medicamentos: montelucaste, celecoxibe, meloxicam e dexametasona, na redução do risco de artrofibrose. O trabalho foi publicado no Journal of Arthroplasty em março de 2026. 

Drug prescription for treatment medication. Pharmaceutical medicament, cure in container for health. Pharmacy theme, capsule pills with medicine antibiotic in packages.

Quais medicamentos realmente funcionaram? 

Os resultados trazem mensagens importantes para a prática clínica. A monoterapia com celecoxibe reduziu significativamente as taxas de manipulação ou de liberação artroscópica de aderências em um ano de seguimento, com odds ratio de 0,86. A dexametasona administrada no dia da cirurgia também mostrou efeito protetor (OR 0,91). Já o meloxicam e o montelucaste, isoladamente, não alcançaram significância estatística. 

Quando combinados, os efeitos foram ainda mais expressivos em algumas associações. A dupla celecoxibe e dexametasona manteve a redução de risco (OR 0,86), enquanto a combinação dexametasona e meloxicam apresentou o melhor resultado entre todas as estratégias avaliadas (OR 0,59). Ou seja, pacientes que receberam essa associação tiveram 41% menos chance de necessitar de intervenção por rigidez. 

E o montelucaste, não funciona? 

Essa é uma das surpresas do estudo. O montelucaste, um antagonista dos receptores de leucotrienos, vinha sendo apontado como potencial agente redutor do risco de rigidez com base em estudos animais e em cirurgia de mama. No entanto, na coorte analisada, ele não demonstrou benefício significativo, seja isoladamente ou em combinação com outros medicamentos. 

Os autores levantam a hipótese de que os efeitos observados em modelos animais podem não se traduzir em benefício clínico na população submetida a ATJ. Outra possibilidade é que o mecanismo de ação do montelucaste seja insuficiente para modular a complexa cascata que leva a formação de tecido cicatricial desencadeada pela cirurgia. 

Por que o celecoxibe funciona melhor que o meloxicam? 

A explicação provavelmente está na seletividade farmacológica. O celecoxibe é um inibidor seletivo da COX-2, enquanto o meloxicam, embora também seja classificado como COX-2 preferencial, perde essa seletividade em doses mais elevadas, passando a inibir parcialmente a COX-1. Estudos pré-clínicos sugerem que a inibição seletiva da COX-2 pode interromper a ativação de miofibroblastos periarticulares, um passo chave na gênese da artrofibrose. 

Quando combinado à dexametasona, porém, o meloxicam parece ganhar um reforço. O efeito anti-inflamatório sinérgico pode potencializar a inibição da cascata fibrótica, explicando o bom resultado da associação. 

Qual a mensagem prática para o ortopedista? 

O estudo da Mayo Clinic oferece evidências robustas para orientar a prática clínica. A administração perioperatória de celecoxibe isolado ou associado à dexametasona, e a combinação dexametasona com meloxicam, mostraram-se eficazes na redução da artrofibrose pós-ATJ. 

É importante lembrar que se trata de um estudo retrospectivo, com limitações inerentes a esse desenho, como a impossibilidade de controlar a adesão medicamentosa e a variação nas indicações de manipulação articular entre serviços. Ainda assim, os achados são consistentes com outras análises de grande escala e oferecem um ponto de partida valioso para futuros protocolos preventivos. 

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁  Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁  Especialista em cirurgia de joelho ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Ortopedia