A amputação representa um grande desafio para pacientes e profissionais envolvidos com a reabilitação. Embora aproximadamente metade dos amputados consiga utilizar próteses convencionais com encaixe por socket de forma satisfatória, a outra metade enfrenta limitações importantes.
Problemas como desconforto, irritação cutânea, má transferência de energia entre o coto e a prótese, e a instabilidade decorrente da “pseudoarticulação” dos tecidos moles comprometem a qualidade de vida e a mobilidade dos amputados.

O que é a prótese osseointegrada e como ela funciona?
Diferentemente das próteses convencionais, que se apoiam no contato com a pele e os tecidos moles, a prótese osseointegrada estabelece uma conexão direta entre o osso e o membro artificial. O sistema descrito utiliza o implante inserido por press-fit de forma retrógrada no canal medular.
A porção distal do implante conta com um conector cônico duplo que serve como pilar para a fixação da prótese, acoplada por um mecanismo de engate externo, algo semelhante ao que ocorre em um implante odontológico. O planejamento pré-operatório permite personalizar o tamanho do implante e da ressecção óssea, respeitando as particularidades anatômicas de cada paciente possibilitando uma reconstrução mais eficaz.
Quem são os candidatos ideais?
A indicação da prótese osseointegrada deve ser criteriosa. Os candidatos potenciais para esta técnica são pacientes com previsão de utilizarem suas próteses por menos de 50 horas semanais, que apresentem problemas cutâneos recorrentes relacionados ao socket das próteses convencionais não osteointegradas, apresentem desconforto na posição sentada, frouxidão da prótese durante atividades diárias e queixas de sudorese excessiva devido acoplamento do sistema tradicional.
Por outro lado, as contraindicações incluem diabetes mal controlado ou com complicações, deformidades ósseas graves, crianças e adolescentes, doenças ósseas como infecção crônica ou metástase, quimioterapia ativa, doença vascular grave, dor sem causa definida, obesidade (IMC > 30) e tabagismo.
Quais as vantagens e desvantagens desse método?
Entre os benefícios destacados pelos autores estão o melhor controle da prótese, a sensação de “membro próprio”, possibilidade de suspensão perfeita na fase de balanço, maior conforto ao sentar, ausência de frouxidão, facilidade para vestir e despir a prótese e manutenção da musculatura do coto. As desvantagens, no entanto, não podem ser ignoradas. A criação de um estoma cutâneo permanente exige cuidados diários de higienização e as infecções de partes moles neste local podem ocorrer, assim a soltura séptica ou asséptica do implante ósseo e fratura periprotética.
Como é a técnica cirúrgica passo a passo?
A técnica cirúrgica envolve duas etapas principais, a correta instrumentação e impacção do implante no canal medular e a adequada confecção do coto na parte distal do implante criando o estoma com o pino de conexão externalizado. Ë possível de modo geral aproveitar cicatrizes pré-existentes, realizando ressecção de pele e tecidos redundantes para permitir fechamento sem tensão.
A osteotomia do osso envolvido é realizada conforme planejamento, com irrigação abundante para evitar dano térmico. Nos casos de amputações a nível transtibial, a fíbula quando preservada, é encurtada cerca de 10 a 20 mm proximal ao nível da tíbia. O canal medular é preparado com brocas rígidas de forma progressiva, sob controle fluoroscópico, até atingir o diâmetro planejado.
A preparação para o formato do implante é feita com raspas manuais, e o componente intramedular é impactado até que o colar do implante esteja firmemente apoiado na cortical. Alguns implantes possibilitam uma fixação complementar com parafusos de bloqueio transversais.
Após o implante do componente ósseo , o fechamento do coto é realizado em camadas, com sutura em bolsa dos músculos remanescentes, criando um estoma raso de 2 a 3 cm. NO pós operatório um curativo compressivo é aplicado no membro por 24 horas, e a limpeza do estoma com água e sabão deve ser iniciada precocemente.
Qual o pós-operatório e a reabilitação?
Após a remoção dos pontos, o programa de reabilitação tem início entre 3 e 4 semanas da cirugia. A carga total na prótese é permitida desde o início, desde que a dor não ultrapasse 5 em uma escala de 0 a 10.
Mensagem final
A técnica de osseointegração para amputados representa um avanço significativo para pacientes com limitações relacionadas ao uso de próteses tradicionais. A seleção criteriosa dos candidatos, o planejamento pré-operatório detalhado e a execução técnica precisa são fundamentais para o sucesso do procedimento. Estudos reportando resultados de pacientes tratados com essa técnica desde 2014, reforçam a segurança e a eficácia da abordagem quando indicada corretamente.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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