A sutura meniscal é o padrão ouro no tratamento das lesões do menisco em pacientes esqueleticamente imaturos e adolescentes. A preservação do tecido meniscal é fundamental para proteger a cartilagem articular e retardar o processo degenerativo precoce. Mas será que todos os jovens se beneficiam igualmente desse procedimento? Um estudo recente sugere que não.
Pesquisadores do Massachusetts General Hospital, vinculado à Harvard Medical School, conduziram uma análise retrospectiva envolvendo 203 pacientes com idade inferior a 19 anos submetidos a sutura meniscal entre 2017 e 2023. Os autores buscaram entender como o peso, o índice de massa corporal (IMC) e as categorias de peso definidas pelo CDC influenciam as taxas de falha da sutura e o retorno ao esporte. O trabalho foi publicado no periódico “Injury” em fevereiro de 2026.
Qual foi a taxa de falha da sutura meniscal?
A taxa global de falha das suturas foi de 24,6%, um número expressivo e que merece atenção. Os pacientes que evoluíram com falha da sutura eram significativamente mais pesados (76,2 kg versus 68,0 kg) e apresentavam IMC mais elevado (26,0 versus 23,7 kg/m²) em comparação àqueles com sutura íntegra. Curiosamente, o percentil do IMC, que ajusta o índice para idade e sexo, não mostrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Ao estratificar os pacientes pelas categorias do CDC, observou-se uma relação direta entre o aumento do peso e o desfecho desfavorável. A taxa de falha foi de 20,6% no grupo com peso saudável, 24,5% no sobrepeso, 33,3% na obesidade e 40,0% na obesidade grave. Os números falam por si.
O peso influencia o retorno ao esporte?
Aqui os achados foram diferentes. Peso, IMC e percentil do IMC não se associaram de forma significativa à capacidade de retornar ao esporte, seja em qualquer nível, seja no mesmo nível pré-lesão. A taxa de pacientes que não retornaram à atividade esportiva aumentou progressivamente com a categoria de peso: 24,3% no peso saudável, 28,9% no sobrepeso, 29,4% na obesidade e 41,7% na obesidade grave. Mas essas diferenças não alcançaram significância estatística.
Os autores levantam uma hipótese interessante: o IMC, isoladamente, não distingue massa gorda de massa muscular. Atletas jovens com maior musculatura podem ter IMC elevado, mas melhor capacidade de reabilitação e biomecânica mais favorável, compensando potenciais efeitos negativos do peso sobre a sutura.
Por que o peso aumenta o risco de falha?
A explicação provavelmente envolve fatores biomecânicos e fisiológicos. O aumento da massa corporal impõe maior carga sobre o menisco reparado, podendo sobrecarregar as suturas e comprometer o processo de cicatrização. Estudos prévios já demonstraram que o estresse repetitivo em meniscos com alterações degenerativas ou reparados pode levar à falha do tecido.
Além disso, o estudo identificou que pacientes submetidos a sutura meniscal isolada tiveram risco de falha 2,17 vezes maior do que aqueles com procedimentos concomitantes, principalmente reconstrução do LCA. Isso reforça a hipótese de que o sangramento e a liberação de fatores de crescimento decorrentes da perfuração óssea criam um ambiente biológico mais favorável à cicatrização meniscal.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo indica que a sutura meniscal em adolescentes não é um procedimento de resultado garantido. Pacientes com peso elevado e IMC aumentado merecem atenção especial no pós-operatório, com monitoramento mais rigoroso dos sinais e sintomas de falha da sutura.
Não se trata de contraindicar o procedimento nesses jovens, mas sim de ajustar as expectativas e planejar um acompanhamento mais próximo. A orientação sobre controle de peso, quando possível, e a escolha criteriosa da técnica cirúrgica podem fazer diferença no desfecho.
E, como sempre, a individualização do cuidado continua sendo a chave. O adolescente obeso não é um paciente igual ao adolescente atleta com peso saudável, e a estratégia pós-operatória precisa refletir essa diferença.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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