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Ortopedia4 junho 2026

Obesidade infantil e fraturas de ossos longos: o que o ortopedista precisa saber

Entenda como a obesidade infantil altera risco, padrão e complicações das fraturas de ossos longos.
Por Rafael Erthal

A associação entre obesidade infantil e fraturas vai além do simples aumento da carga mecânica. Crianças com excesso de peso não apenas fraturam mais, como fraturam de forma diferente, apresentam lesões fisárias mais frequentes, padrões mais complexos de fratura e maior taxa de complicações no tratamento.  

Essa realidade exige que o ortopedista reconheça a obesidade não apenas uma comorbidade secundária, mas sim como um fator pode alterar o comportamento da fratura. 

Pesquisadores da Universidade de Alexandria, no Egito conduziram uma revisão sistemática para avaliar a relação entre obesidade e fraturas de ossos longos em crianças e adolescentes.  

Foram analisados 14 estudos publicados entre 2000 e 2025, abrangendo desde pequenas coortes institucionais até análises populacionais com mais de 900 mil pacientes. O trabalho foi publicado em 2026 no periódico European Journal of Orthopaedic Surgery & Traumatology. 

obesidade infantil e ossos

Metodologia  

A revisão seguiu as diretrizes do PRISMA e incluiu estudos observacionais (coortes retrospectivas, prospectivas e transversais) publicados em inglês entre janeiro de 2000 e março de 2025. A obesidade foi definida como índice de massa corporal (IMC) igual ou superior ao percentil 95 para idade e sexo, e o sobrepeso como IMC entre os percentis 85 e 95.  

Foram incluídas apenas fraturas de ossos longos (úmero, rádio/ulna, fêmur e tíbia/fíbula). A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada pela escala Newcastle-Ottawa. Devido à heterogeneidade dos desfechos, não foi possível realizar metanálise, optando-se por uma síntese qualitativa dos achados. 

A obesidade aumenta o risco de fraturas? E em quais ossos? 

Sim, e o efeito é mais pronunciado nos membros inferiores. Crianças obesas ou com sobrepeso apresentaram risco 1,5 a 3,3 vezes maior de fraturas de tíbia e fêmur, especialmente na faixa etária de 6 a 11 anos.  

Grandes estudos populacionais demonstraram que o risco de fraturas de membros inferiores aumenta progressivamente com a gravidade da obesidade. Para os membros superiores, a associação foi menos consistente, embora alguns estudos tenham apontado maior risco de fraturas de antebraço e úmero distal em crianças obesas. 

O padrão das fraturas muda na criança obesa? 

O envolvimento da fise é aproximadamente duas vezes mais frequente em crianças obesas, tanto nos membros inferiores quanto nos superiores, predominantemente com padrões Salter-Harris tipo II.  

Na região distal do úmero, a obesidade se associou a padrões mais graves de lesão: maior proporção de fraturas do côndilo lateral com desvio significativo e fraturas supracondilares Gartland tipo III e IV, frequentemente resultantes de mecanismos de baixa energia.  

Nessas últimas, observou-se maior incidência de lesões neurológicas pré e pós-operatórias. Nas fraturas de antebraço, crianças obesas apresentaram maior prevalência de fraturas completas e lesões fisárias em comparação aos eutróficos. 

O tratamento é mais difícil? E as complicações? 

A falha do tratamento conservador em fraturas de ambos os ossos do antebraço foi significativamente mais alta em crianças obesas, com taxas que chegaram a 34%, contra 18% nos eutróficos, mais da metade dessas falhas necessitaram de correção cirúrgica. A necessidade de redução aberta nas fraturas supracondilares tipo III também foi maior em crianças com IMC elevado, o que pode refletir tanto maior desvio inicial quanto dificuldades técnicas impostas pelo maior envelope de partes moles e pela pior visualização fluoroscópica. 

As complicações cirúrgicas foram mais frequentes em pacientes obesos, incluindo maior incidência de desvio varo, infecção do sítio do pino e perda da redução. Em crianças com peso superior a 50 kg submetidas a haste elástica para fraturas de fêmur ou tíbia, a taxa de complicação foi expressiva, especialmente nas fraturas femorais, o que levou os autores a recomendar evitar a técnica nesse grupo, optando por hastes rígidas ou placas.  

Houve ainda maior risco de admissão em unidade de terapia intensiva e maior mortalidade hospitalar no grupo obeso, embora esse desfecho não seja específico das fraturas e provavelmente reflita a gravidade sistêmica do trauma. 

Qual a mensagem prática para o ortopedista pediátrico? 

O ortopedista deve considerar a obesidade infantil não como uma comorbidade secundária, mas como um modificador ativo do risco, do padrão e do prognóstico das fraturas. Antecipar dificuldades na redução fechada, na moldagem do gesso e na interpretação das imagens devido ao maior envelope de partes moles.  

Optar por fixações mais robustas quando indicado, evitar haste elástica em crianças acima de 50 kg, usar fios de maior diâmetro ou configurações mais estáveis nas fraturas supracondilares. E acompanhar mais de perto no pós-operatório, com vigilância radiológica seriada para detecção precoce de perda de redução além de outras complicações. 

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁  Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁  Especialista em cirurgia de joelho ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

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Referências bibliográficas

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