A luxação acromioclavicular (LAC) é uma das lesões ligamentares mais frequentes do ombro, correspondendo a cerca de 12% de todas as lesões dessa articulação. Ocorre tipicamente em acidentes automobilísticos ou esportes de contato, afetando predominantemente adultos jovens e ativos. Essa lesão pode ser classificada segundo Rockwood em seis padrões.
Tipo I é uma entorse sem deslocamento (ligamento acromioclavicular estirado). Tipo II há ruptura do ligamento acromioclavicular com pequeno deslocamento articular (< 25%). Tipo III há ruptura dos ligamentos acromioclavicular e coracoclavicular com deslocamento completo (25-100. Tipo IV o deslocamento é posterior (para trás da articulação). Tipo V há deslocamento superior grave (> 100% do espaço coracoclavicular). Tipo VI é o mais raro, com deslocamento inferior (clavícula para baixo do coracoide).Se para os tipos I e II da classificação de Rockwood o consenso é pelo tratamento conservador, para os tipos III a V o debate permanece presente. Afinal, será melhor operar ou não operar?
Pesquisadores chineses conduziram uma revisão sistemática com metanálise para tentar responder a essa pergunta. Os autores analisaram ensaios clínicos randomizados que compararam o tratamento cirúrgico ao conservador nas luxações agudas tipo III a V de Rockwood. O trabalho foi publicado em fevereiro de 2026 no periódico “Injury”.
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O tratamento cirúrgico oferece melhor função?
Não de acordo com os dados agregados. A metanálise do escore de Constant, principal desfecho funcional avaliado, não demonstrou diferença significativa entre os grupos cirúrgico e conservador, tanto na análise global dos tipos III a V quanto na análise isolada do tipo III, o mais controverso. A diferença média foi de apenas 1,64 pontoS a favor da cirurgia na análise global, sem significância estatística.
Para o tipo V, os dados são mais limitados, mas também não mostraram vantagem funcional da cirurgia. Os poucos estudos disponíveis apontam na mesma direção: escores de Constant semelhantes entre as abordagens.
As complicações são maiores na cirurgia?
Sim, e essa diferença é significativa. A taxa de complicações no grupo cirúrgico foi mais de quatro vezes superior à do grupo conservador na análise global (RR 4,64). Quando analisados apenas os pacientes com lesão tipo III, porém, essa diferença desapareceu, sugerindo que as complicações podem estar concentradas nos tipos mais graves.
As complicações descritas incluíram problemas relacionados ao implante, infecções e necessidade de novas intervenções. A taxa de procedimentos cirúrgicos adicionais tardios, por sua vez, não diferiu entre os grupos na análise global, embora com heterogeneidade significativa entre os estudos.
E a aparência do ombro e o retorno ao esporte?
Aqui os dados são mais escassos, mas alguns estudos trazem informações relevantes. O valor subjetivo do ombro (SSV) foi de 100% no grupo cirúrgico e 86% no conservador em um dos ensaios. Quanto à aparência, as avaliações de satisfação dos pacientes não mostraram diferenças consistentes entre os grupos, o que pode aliviar a preocupação com deformidades residuais no tratamento conservador.
Em relação ao retorno ao esporte, um estudo relatou que 85% dos pacientes tratados conservadoramente retornaram às atividades esportivas em um ano, contra 73% no grupo cirúrgico — diferença não significativa.
Qual a mensagem prática?
A metanálise chinesa traz evidências importantes para a tomada de decisão compartilhada com o paciente. Para a luxação acromioclavicular tipo III, a abordagem conservadora parece oferecer resultados funcionais equivalentes aos da cirurgia, com menor risco de complicações. Isso não significa que a cirurgia esteja contraindicada, mas sim que deve ser reservada para casos selecionados: pacientes com demanda funcional muito elevada, esportistas de alto rendimento ou aqueles que não toleram a deformidade estética.
Para os tipos IV e V, os dados são insuficientes para conclusões definitivas, embora a tendência observada também aponte para resultados funcionais semelhantes. Mais ensaios clínicos randomizados, com padronização das técnicas e seguimento prolongado, são necessários para esclarecer definitivamente a questão.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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