A fratura distal do rádio é uma das lesões mais comuns na ortopedia, e o tratamento cirúrgico com placa volar tornou-se padrão. Durante o procedimento, muitos cirurgiões realizam a liberação do túnel do carpo (LTC) de forma profilática, com o objetivo de prevenir a síndrome do túnel do carpo (STC) que pode se desenvolver após a lesão, seja por edema, hematoma, deslocamento de fragmentos ou até por irritação do nervo mediano por material de síntese.
A lógica parece fazer sentido: se a STC é uma complicação frequente (afetando cerca de 20% dos pacientes operados), por que não prevenir? O problema é que a evidência para sustentar essa prática sempre foi frágil.
Pesquisadores do Departamento de Cirurgia Ortopédica da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, liderados por Arjun Dinesh, conduziram um estudo do tipo coorte retrospectiva utilizando a base de dados TriNetX, que reúne registros eletrônicos de saúde de mais de 100 milhões de pacientes em 51 organizações norte-americanas. Foram identificados 53.565 pacientes adultos submetidos a redução aberta e fixação interna (RAFI) de fratura do rádio distal entre 2010 e 2025.
Destes, 5.092 (9,5%) receberam LTC concomitante à fixação. Após pareamento por escore de propensão (1:1) para idade, sexo, raça, comorbidades, medicações e complexidade da fratura, 5.090 pares foram analisados. O objetivo principal foi avaliar se a LTC concomitante reduz a necessidade de uma nova LTC em até dois anos. O trabalho foi publicado em 2026 no periódico Injury.

A liberação profilática reduz a necessidade de nova cirurgia do túnel do carpo?
Não. Aos dois anos de seguimento, a taxa de nova LTC foi de 2,24% no grupo que recebeu a liberação profilática e 1,79% no grupo sem liberação. A diferença absoluta foi de apenas 0,45%, e o hazard ratio foi de 1,306 (IC95% 0,992-1,721; p = 0,057), ou seja, não houve diferença estatisticamente significativa. Em um ano, as taxas foram 1,75% versus 1,61% (HR 1,112; p = 0,487). A LTC profilática não reduziu a necessidade de reintervenção.
A LTC concomitante aumenta as complicações?
Sim. Os pacientes submetidos a LTC profilática tiveram maiores taxas de revisão da RAFI (3,32% vs 2,36% em dois anos; p = 0,002), de cirurgia por má-união ou pseudoartrose (0,98% vs 0,63%; p = 0,039) e de visitas ao departamento de emergência em 90 dias (7,62% vs 6,03%; OR 1,286; p = 0,002). As taxas de infecção (1,63% vs 1,30%; p = 0,129) e hematoma (3,54% vs 3,69%; p = 0,671) não foram diferentes entre os grupos.
Essas diferenças podem refletir a maior complexidade das lesões no grupo LTC, mesmo com o pareamento, ou um efeito direto do prolongamento do tempo cirúrgico e da maior agressão tecidual. O tempo operatório mais longo é um fator de risco bem estabelecido para complicações em fraturas do rádio distal.
A evidência atual sustenta a LTC profilática rotineira?
Não. Os achados do estudo da Cleveland Clinic estão alinhados com dois estudos recentes: um ensaio clínico randomizado que não encontrou benefício da LTC profilática em desfechos funcionais e um estudo retrospectivo que não mostrou melhora nos escores PROMIS ou QuickDASH. A LTC profilática parece aumentar o tempo cirúrgico, expor o paciente a riscos desnecessários e não trazer benefício demonstrável.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo não defende a abolição completa da LTC durante a fixação do rádio distal. O que ele mostra é que a LTC profilática rotineira, realizada em todos os pacientes, sem seleção, não se justifica. Pacientes com sintomas agudos de STC, sinais de compressão mediana significativa ou fraturas com alto risco de lesão do nervo podem se beneficiar da liberação. Para a maioria dos pacientes, porém, a abordagem expectante e o tratamento sintomático após a cirurgia parecem ser a conduta mais segura.
A decisão envolvendo indicar ou não o procedimento deve ser individualizada e baseada na avaliação neurológica pré-operatória e intraoperatória, e não em um protocolo universal. O estudo da Cleveland Clinic oferece evidência robusta para orientar essa escolha.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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