Nos últimos anos, temos observado um aumento significativo tanto na obesidade quanto na desnutrição, condições que antes pareciam opostas, mas que agora coexistem de maneira preocupante. A literatura médica já reconhece que a obesidade por si só pode aumentar o risco de complicações cirúrgicas.
Da mesma forma, a desnutrição está associada a uma recuperação mais lenta e a um aumento nas taxas de infecção e morbidade. Mas e quando esses dois fatores ocorrem juntos? Essa foi a questão central de uma recente revisão sistemática publicada no Bone & Joint Journal, que analisou a influência da desnutrição associada à obesidade nos desfechos cirúrgicos ortopédicos.
O que diz a ciência?
O estudo revisou oito artigos que incluíram mais de 106 mil pacientes submetidos a cirurgias ortopédicas, tanto eletivas quanto relacionadas a traumas. Os resultados foram intrigantes: enquanto a combinação de obesidade e desnutrição não pareceu impactar negativamente os desfechos em cirurgias do ombro e do úmero, essa mesma combinação se mostrou prejudicial em procedimentos do quadril, joelho e coluna lombar.
Nos casos de artroplastia total de quadril ou joelho, a presença simultânea de obesidade e desnutrição esteve associada a um maior tempo de internação, aumento na taxa de complicações pós-operatórias e maior necessidade de reoperações. Da mesma forma, em cirurgias da coluna lombar, pacientes que apresentavam esse perfil apresentaram maior incidência de infecções e sepse, além de maior risco de falha na fixação dos implantes.
Por que isso acontece?
A explicação pode estar na interação entre os processos inflamatórios crônicos causados pela obesidade e a deficiência nutricional, que prejudica a cicatrização e a resposta imunológica. A obesidade é um estado de inflamação persistente de baixo grau, que compromete a capacidade do organismo de responder ao estresse cirúrgico. Já a desnutrição, especialmente a deficiência de proteínas e micronutrientes, leva à redução da capacidade de regeneração dos tecidos, tornando o paciente mais vulnerável a infecções e a um retardo na recuperação.
O que podemos fazer para melhorar os desfechos cirúrgicos?
Diante desses achados, fica claro que a abordagem pré-operatória deve ser mais abrangente. Pacientes com obesidade e suspeita de desnutrição devem ser cuidadosamente avaliados antes da cirurgia, incluindo a dosagem de albumina sérica e outros marcadores nutricionais. A otimização pré-operatória pode incluir suplementação proteica e ajuste na dieta para melhorar a composição corporal e fortalecer o organismo para o período pós-operatório.
Além disso, um acompanhamento rigoroso no pós-operatório é essencial. Estratégias como suplementação alimentar, fisioterapia intensiva e controle rigoroso de infecções podem fazer toda a diferença na recuperação desses pacientes.
Mensagem prática
O impacto da desnutrição associada à obesidade nos resultados cirúrgicos ortopédicos é uma realidade que não pode ser ignorada. Pacientes com esse perfil precisam de um cuidado multidisciplinar, que envolva cirurgiões, nutricionistas e fisioterapeutas, a fim de minimizar complicações e otimizar a recuperação. A boa notícia é que, com uma abordagem adequada, é possível modificar esses fatores de risco e garantir melhores desfechos cirúrgicos.
Esse estudo reforça a importância de olharmos para o paciente de forma integral, considerando não apenas seu peso na balança, mas também sua condição nutricional e sua capacidade de enfrentar o processo cirúrgico de maneira segura.
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