O fio de Kirschner (fio K) é um dispositivo de fixação amplamente utilizado na ortopedia, especialmente em cirurgias da mão, do punho, do pé e do tornozelo, e ortopedia pediátrica. Isso tem relação com sua versatilidade, baixo custo e facilidade técnica.
Apesar dessas vantagens, a infecção relacionada ao trajeto do fio segue como uma complicação relevante, podendo variar desde quadros superficiais autolimitados até infecções profundas com impacto significativo.
Apesar de preocupante, a taxa dessas complicações e o perfil de pacientes nas quais elas ocorrem ainda não é completamente compreendida e para elucidar essas questões, um estudo foi recentemente desenvolvido e publicado em dezembro deste ano por pesquisadores italianos na revista científica “Injury”.

Sobre o estudo
Trata-se de um estudo retrospectivo incluindo pacientes operados em um hospital terciário italiano localizado em Florença entre janeiro de 2020 e dezembro de 2024. Foram incluídos todos os casos de fraturas pediátricas tratadas com fios de Kirschner lisos (não rosqueados) o que contabilizou uma amostra de 1386 pacientes. O objetivo principal foi determinar a taxa de infecção pós-operatória nessa população específica determinando o perfil e os fatores de risco para essas infecções.
O que os resultados mostraram?
Dos 1386 pacientes incluídos, 33 desenvolveram algum tipo de infecção relacionada ao fio, correspondendo a uma taxa global de 2,4%. A gravidade dos quadros foi variável: quase metade dos casos (48,5%) eram de infecções superficiais do trajeto do pino que foram tratadas ambulatorialmente com antibióticos orais e cuidados locais. Por outro lado, 33,3% evoluíram para osteomielite e 9,1% para infecções profundas de partes moles, condições que demandaram hospitalização e tratamento venoso prolongado. O agente mais frequentemente isolado foi o Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA), não tendo sido identificados casos de MRSA nesta coorte.
Quais fatores aumentaram significativamente o risco de infecção?
A análise estatística revelou dois fatores de risco independentes e estatisticamente significativos. O primeiro foi a idade inferior a 9 anos: crianças nessa faixa etária apresentaram 2,8 vezes mais chances de desenvolver uma complicação infecciosa. O segundo fator foi a cirurgia realizada durante o verão, que dobrou o risco de infecção.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que as temperaturas mais altas e a maior transpiração nesta época do ano possam facilitar a colonização bacteriana no local do fio, um desafio adicional para a higiene do gesso, especialmente em pacientes mais jovens. É importante notar que outras variáveis, como o tempo até a cirurgia, o número de fios utilizados, o local da fratura (membros superiores vs. inferiores) e o tipo de redução (aberta ou fechada) não se mostraram associadas a um maior risco.
Quais são as implicações práticas para o ortopedista?
Os resultados reforçam a segurança geral do uso dos fios de Kirschner em trauma pediátrico, com uma baixa taxa de complicações infecciosas graves. No entanto, eles destacam a necessidade de vigilância redobrada em dois grupos específicos: crianças pequenas (menores de 9 anos) e pacientes operados nos meses de verão.
Nesses casos, devemos instruir de modo ainda mais rigoroso e detalhado os familiares e cuidadores quanto aos cuidados com o gesso e o local de saída dos fios. O estudo não encontrou suporte para alterar a prática de deixar as extremidades dos fios expostas (não sepultadas no subcutâneo), que permite a remoção em ambiente ambulatorial.
O que podemos levar para casa?
Esse estudo descreve a taxa de infecção após fixação com fio de Kirschner em uma grande coorte pediátrica em um centro de atendimento terciário. Os resultados deste estudo sugerem que complicações infecciosas envolvendo fios de Kirshner em ortopedia pediátrica são raras e que a educação do paciente sobre os cuidados com a ferida e o gesso podem desempenhar um papel na redução de sua ocorrência.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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