A hiponatremia definida como sódio sérico inferior a 135 mEq/L, é uma alteração comum no pós-operatório de artroplastias totais de quadril e joelho, afetando até 30% dos pacientes.
Tradicionalmente, essa condição gera alerta entre os cirurgiões, que frequentemente atrasam a alta hospitalar para investigação e correção do distúrbio, com custos adicionais significativos. Mas será que a hiponatremia pós-operatória leve e assintomática realmente representa um risco clínico relevante ou é um achado laboratorial que pode ser manejado de forma mais conservadora?
Pesquisadores do Departamento de Cirurgia Ortopédica da Rush University Medical Center, em Chicago, liderados por Alexander J. Acuna, conduziram um estudo retrospectivo para avaliar a relação entre hiponatremia pós-operatória e desfechos adversos em 90 dias após artroplastia total de quadril e joelho.
O objetivo principal do estudo foi comparar as taxas de complicações médicas e cirúrgicas entre os grupos, controlando para fatores de confusão como idade, sexo, IMC, índice de comorbidades de Charlson, tempo cirúrgico e tipo de procedimento. O trabalho foi publicado no Journal of Bone and Joint Surgery em abril de 2026.

Quais foram os métodos?
Foram analisados 4.381 pacientes submetidos a procedimentos primários ou de revisão entre 2010 e 2023, segregados em três grupos com base nos níveis de sódio pré e pós-operatórios:
- normonatrêmicos/normonatrêmicos (Grupo 1, n =3.441);
- normonatrêmicos/hiponatrêmicos (Grupo 2, n = 830);
- hiponatrêmicos/hiponatrêmicos (Grupo 3, n = 110).
A hiponatremia pós-operatória aumenta o risco de complicações médicas?
Sim, mas com uma ressalva importante. Na análise multivariada, pacientes do Grupo 2 (normonatrêmicos que se tornaram hiponatrêmicos) apresentaram risco significativamente maior de qualquer complicação médica (OR 1,75; IC95% 1,31-2,33; p < 0,001) e de qualquer complicação geral (OR 1,63; IC95% 1,25-2,13; p < 0,001) em comparação ao Grupo 1. No entanto, esse aumento foi quase totalmente explicado pela maior incidência de insuficiência renal aguda (IRA) nesse grupo (OR 1,98; IC95% 1,45-2,71; p < 0,001). Quando a análise excluiu a IRA, não houve diferença significativa entre os grupos para complicações médicas (OR 0,96; p = 0,91) ou qualquer complicação (OR 1,03; p = 0,91).
Em outras palavras, pacientes com hiponatremia pós-operatória tiveram maior risco de lesão renal, mas não apresentaram mais pneumonia, infecção urinária, eventos tromboembólicos ou outras complicações médicas.
A hiponatremia aumenta o risco de complicações cirúrgicas?
Não. Não houve diferença significativa entre os grupos para qualquer complicação cirúrgica avaliada, incluindo infecção periprotética, infecção de sítio cirúrgico, deiscência de ferida, revisão não planejada, fratura periprotética ou luxação do quadril. A análise multivariada confirmou a ausência de associação (OR para qualquer complicação cirúrgica: 1,02; p = 0,96).
O que aconteceu com pacientes que já eram hiponatrêmicos antes da cirurgia?
O Grupo 3 (hiponatrêmicos pré e pós-operatórios) apresentou maior risco de visitas ao departamento de emergência em 90 dias (OR 2,51; IC95% 1,04-6,05; p = 0,041) em comparação ao Grupo 1. Não houve diferenças significativas para complicações médicas, cirúrgicas ou readmissões, embora a análise para readmissão tenha sugerido uma tendência que não alcançou significância (OR 2,32; p = 0,061). O pequeno número de pacientes nesse grupo (n = 110) limita a robustez dessas conclusões.
A gravidade da hiponatremia faz diferença?
Pacientes com níveis de sódio entre 132 e 134 mEq/L tiveram maior risco de complicações médicas e gerais em comparação aos normonatrêmicos, mas novamente a IRA foi a principal responsável por esse efeito. Não houve relação entre a gravidade da hiponatremia pré-operatória e os desfechos avaliados.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo constitui o maior da série até o momento, traz uma mensagem tranquilizadora e potencialmente redutora de custos. A hiponatremia pós-operatória leve e assintomática, na ausência de outros sinais de alerta, não parece justificar atraso na alta hospitalar ou intervenções agressivas. O risco aumentado de complicações nesses pacientes é quase totalmente explicado pela maior incidência de lesão renal aguda, um desfecho que pode ser monitorado clinicamente sem necessariamente prolongar a internação.
Esses achados são particularmente relevantes no contexto atual de crescente demanda por internações de curta permanência. A realização rotineira de eletrólitos pós-operatórios em todos os pacientes deve ser repensada, assim como a prática de tratar valores laboratoriais assintomáticos. Pacientes com hiponatremia leve, clinicamente estáveis e sem evidência de lesão renal ou outras complicações podem receber alta com segurança, evitando custos desnecessários e otimizando o fluxo do cuidado.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.