A recomendação de restrição de atividades de alto impacto após artroplastias totais de quadril ou joelho sempre foi recomendada. Baseada mais em consensos de especialistas do que em evidências sólidas, essa orientação sempre gerou desconforto tanto para médicos quanto para pacientes, especialmente naqueles mais jovens e ativos. Afinal, o desejo de retornar a um estilo de vida mais intenso é compreensível e, muitas vezes, um dos principais motivadores para a realização de uma cirurgia.
Foi justamente para testar esse dogma que um grupo do Departamento de Cirurgia Ortopédica da NYU Langone Health, em Nova York, conduziu um estudo ambicioso. Publicado no “The Journal of Arthroplasty” na edição de março de 2026, o artigo avaliou a relação entre o nível de impacto dos esportes praticados e as taxas de revisão após artroplastias primárias.

Como o estudo foi desenhado?
A amostra da pesquisa incluiu 1.622 pacientes submetidos à artroplastia total de quadril e 1.388 submetidos à artroplastia total de joelho, operados entre junho de 2011 e janeiro de 2022 em um grande centro acadêmico. Os pacientes foram questionados sobre sua participação em atividades esportivas no pós-operatório, com um follow-up médio de 5,3 anos para quadril e 4,8 anos para joelho.
Com base nas respostas, os participantes foram divididos em quatro grupos conforme a intensidade do esporte praticado: nenhum esporte, esportes de baixo impacto, médio impacto e alto impacto. A classificação seguiu as diretrizes da American Association of Hip and Knee Surgeons (AAHKS), Hip Society e Knee Society. O desfecho primário analisado foi a taxa de revisão, incluindo causas sépticas e assépticas.
Qual foi o perfil dos pacientes mais ativos?
Os dados revelaram um perfil bem definido: os pacientes que se engajaram em esportes de médio e alto impacto eram significativamente mais jovens, com menor índice de massa corporal (IMC), predominantemente do sexo masculino e com menor escore ASA (American Society of Anesthesiologists). Em outras palavras, os mais ativos eram justamente aqueles com melhor saúde.
Afinal, praticar esportes de alto impacto aumentou as revisões?
De forma surpreendente os resultados mostraram que não. Contrariando as recomendações tradicionais, os pesquisadores não encontraram diferenças significativas nas taxas de revisão entre os grupos, independentemente do nível de impacto da atividade.
- No quadril: as taxas de revisão foram de 2,9% no grupo sem esporte, 1,9% no grupo de baixo impacto e 1,6% no grupo de médio/alto impacto.
- No joelho: os números foram 3,0%, 1,6% e 0,0%, respectivamente.
A análise de sobrevida do implante em 10 anos, realizada pelo método de Kaplan-Meier, também não demonstrou diferença significativa entre os grupos, tanto para quadril quanto para joelho.
O que explica esses achados?
Os autores levantam uma hipótese interessante: os avanços no design dos implantes, como o uso de polietileno de melhor qualidade do tipo cross-linked e técnicas de fixação modernas, podem ter superado as limitações mecânicas que, no passado, tornavam as atividades de alto impacto um fator de risco para falha.
Além disso, o melhor perfil de saúde dos pacientes mais ativos (menor IMC, menor ASA) provavelmente contribui para a maior sobrevida dos implantes, independentemente da atividade praticada.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo não defende uma liberação para esportes de impacto de forma geral, mas sugere que, para pacientes adequadamente selecionados, ou seja, aqueles com bom status de saúde e boa capacidade funcional, a participação em esportes de médio e alto impacto pode não representar um risco aumentado de revisão em médio prazo.
É claro que a decisão deve ser individualizada e compartilhada, levando em conta não apenas a chance de soltura do implante, mas também o risco de quedas, fraturas periprotéticas e outras complicações. Mas o estudo da NYU nos faz questionar mais um dos dogmas da ortopedia e talvez abrir um caminho para aqueles pacientes que sonham em voltar a praticar esportes de impacto após uma artroplastia.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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