Por muitos anos, um número quase mágico guiou decisões em traumas do anel pélvico: 2,5 cm. Essa medida, o afastamento entre os ossos púbicos na sínfise, era usada como linha divisória entre o que era considerado estável ou instável, operável ou conservador guiando classificações e decisões terapêuticas. Mas será que essa régua única ainda faz sentido à luz do que sabemos hoje?
O artigo “The myth of 2.5 cm symphyseal diastasis”, um estudo de revisão, publicado recentemente na revista científica “Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery”, revisita esse marco e questiona sua validade. A verdade é que nem sempre uma diástase menor que 2,5 cm representa estabilidade, e nem sempre uma maior indica instabilidade real. A complexidade anatômica e biomecânica do anel pélvico exige uma análise mais ampla do que apenas a mensuração do espaço entre os ossos púbicos.
Boa parte do problema vem da forma como essa medida foi consolidada na literatura e nas classificações, como a de Young-Burgess. A separação de até 2,5 cm costumava ser associada a lesões do garu I do tipo compressão anteroposterior (CAP-I), geralmente consideradas estáveis. Seguindo este princípio, valores maiores indicariam lesões CAP-II ou III, com envolvimento progressivo da articulação sacroilíaca. No entanto, estudos mais recentes mostram que esse corte é simplista demais para dar conta da realidade clínica.
Dissecções cadavéricas e testes biomecânicos apontam que uma lesão isolada da sínfise raramente gera um afastamento maior que 1 cm. Quando se atinge 2,5 cm ou mais, provavelmente já há algum grau de lesão ligamentar posterior, mas não é uma regra. O inverso também vale: lesões instáveis podem ocorrer com afastamentos discretos, especialmente quando há lesão sacroilíaca oculta.
E o que isso muda na prática?
Muita coisa. A mensagem deste estudo é clara: mais do que se prender a um número, devemos olhar para o todo. Lesões com diástase entre 5-10 mm merecem investigação mais aprofundada com exames com estresse, e aquelas acima de 10 mm tendem a se beneficiar de estabilização cirúrgica, mesmo que aparentemente “menores” nos exames iniciais.
Radiografias convencionais podem subestimar ou mascarar o grau real de instabilidade. A sobreposição de estruturas, a contração muscular e o uso de cintos pélvicos no atendimento inicial podem reduzir artificialmente a diástase visível. Por isso, exames dinâmicos com estresse como o flamingo view (apoio unipodal) ou mesmo a avaliação sob anestesia ganham força como aliados na decisão terapêutica em casos com abertura sútil.
Critérios de mobilidade Fisiológica na radiografia em apoio unipodal (“Flamingo View”)
- Valores normais de movimento fisiológico:
- Homens: < 0,5 mm.
- Mulheres (nulíparas): < 1,5 mm.
- Mulheres (multíparas): ≤ 3 mm (ainda considerado normal).
- Limite sugerido para anormalidade:
- Mobilidade ≥ 5 mm pode ser considerado um ponto de corte (cut-off) para instabilidade patológica.
É hora de tratarmos o número 2,5 como referência histórica e não mais como sentença clínica.
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