O climatério é um período de profundas alterações hormonais que afetam múltiplos sistemas, incluindo o musculoesquelético. Embora fogachos e alterações do humor sejam amplamente reconhecidos, as dores articulares e musculoesqueléticas que afetam mais da metade das mulheres nessa fase permanecem subdiagnosticadas e subtratadas. Reconhecer essa associação é fundamental para evitar investigações desnecessárias e orientar o manejo adequado.

Estudo recente
Um grupo de pesquisadores da Universidade McMaster, no Canadá, conduziu uma revisão sistemática com metanálise para quantificar a prevalência das manifestações musculoesqueléticas no climatério. Foram incluídos 37 estudos observacionais, abrangendo 93.021 mulheres de 22 países. O trabalho foi publicado em 2026 no Journal of Bone and Joint Surgery.
Os autores realizaram uma busca sistemática nas bases Medline, EMBASE, CENTRAL e PubMed até maio de 2024, incluindo 37 estudos observacionais (35 transversais e dois de coorte prospectiva) que totalizaram 93.021 mulheres.
A elegibilidade foi definida pelos critérios STRAW para estadiamento reprodutivo, e as participantes foram classificadas como pré-menopausa, perimenopausa ou pós-menopausa. Foram excluídas mulheres submetidas à menopausa cirúrgica. Metanálises pareadas foram realizadas para a análise estatística efetuada.
Qual é a prevalência de dor musculoesquelética em cada fase da menopausa?
Os números são expressivos. Quatro em cada dez mulheres na pré-menopausa já relatam dor muscular ou articular (40%). Esse percentual sobe para 57% na perimenopausa e para 59% na pós-menopausa. Em comparação com a pré-menopausa, as mulheres na transição menopáusica apresentam um risco 1,35 vezes maior de dor (RR 1,35; IC95% 1,25-1,46), enquanto as pós-menopáusicas têm risco 1,40 vezes maior (RR 1,40; IC95% 1,28-1,53).
A análise pareada entre perimenopausa e pós-menopausa, no entanto, não mostrou diferença significativa (RR 0,97; IC95% 0,92-1,01), sugerindo que o aumento do risco ocorre justamente durante a transição, e não de forma progressiva após o último período menstrual.
Que tipos de dor foram identificados?
Infelizmente, os dados disponíveis são majoritariamente genéricos. A maioria dos estudos utilizou questionários como Menopause Rating Scale (MRS) e Menopause-Specific Quality-of-Life Questionnaire (MENQOL), que agrupam “dor muscular” e “dor articular” como categorias amplas. Condições específicas como osteoartrite, tendinopatias, síndrome do impacto do ombro, capsulite adesiva, síndrome do túnel do carpo ou tenossinovite de De Quervain foram raramente reportadas.
Essa lacuna é clinicamente relevante. Muitas das síndromes musculoesqueléticas que atendemos no consultório, especialmente aquelas relacionadas a tendões e ligamentos, têm predileção pelo sexo feminino e parecem se agravar na transição da menopausa. A deficiência estrogênica pode promover um estado pró-inflamatório, reduzir a síntese de colágeno e comprometer a elasticidade dos tecidos conectivos.
Por que o ortopedista deve se importar com isso?
Primeiro, porque a prevalência é alta. Se mais da metade das mulheres em perimenopausa apresenta dor musculoesquelética, é inevitável que essa população esteja presente no nosso dia a dia. Segundo, porque o reconhecimento dessa associação pode evitar investigações desnecessárias e tratamentos ineficazes.
A literatura experimental mostra que os receptores de estrogênio estão presentes em cartilagem articular, osso subcondral, sinóvia, músculos, tendões e ligamentos. Estudos em animais e observacionais sugerem que o declínio estrogênico acelera a degeneração cartilaginosa e reduz a capacidade de reparo tendíneo. Ainda assim, o papel da terapia hormonal na prevenção ou tratamento desses sintomas permanece controverso.
Quais as implicações para a prática?
O estudo não nos dá todas as respostas, mas nos aponta um caminho. Precisamos perguntar sobre a fase do climatério das nossas pacientes. Precisamos suspeitar que aquela dor difusa, migratória, sem correlação radiológica clara, possa ter uma origem hormonal. E precisamos, sobretudo, colaborar com ginecologistas e endocrinologistas no manejo dessas mulheres.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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