A fratura de quadril é uma das condições mais frequentes no idoso, com incidência global estimada em 1,6 milhão de casos por ano, em franca expansão com o envelhecimento populacional.
A imobilização prolongada imposta pela fratura e as múltiplas comorbidades tornam esses pacientes especialmente vulneráveis a complicações, entre as quais a infecção do trato urinário (ITU) se destaca, com taxas descritas entre 4% e 32%. A cateterização vesical é frequentemente empregada para aliviar o desconforto e facilitar os cuidados de enfermagem, mas persiste a dúvida: a sonda vesical protege ou predispõe à ITU nessa população?
Um recente ensaio clínico randomizado controlado conduzido no Hospital da Universidade de Sakarya, na Turquia, avaliou 150 pacientes com mais de 65 anos submetidos a cirurgias para osteossíntese de fraturas proximais do fêmur entre dezembro de 2022 e maio de 2025.

Métodos utilizados
Os participantes foram randomizados para cateterização vesical imediata com remoção em até 24 horas após a cirurgia ou para manejo sem sonda. O desfecho primário foi a ITU pós-operatória, diagnosticada por critérios clínicos e microbiológicos e o secundário foi a função renal (ureia e creatinina). O trabalho foi publicado em 2026 na revista científica Injury.
A sonda vesical aumenta a infecção do trato urinário?
Não de forma significativa. No grupo cateterizado, 18,5% dos pacientes desenvolveram ITU, contra 11,9% no grupo sem sonda, diferença sem significância estatística (p = 0,296). Na análise multivariada, a cateterização associou-se a um odds ratio de 1,43 (IC95% 0,53-3,86; p = 0,482), ou seja, não houve aumento independente do risco infeccioso. O sexo feminino mostrou uma tendência a maior risco (OR 2,90; IC95% 0,89-9,47; p = 0,078), assim como a idade mais avançada (OR 1,04 por ano; IC95% 0,97-1,12; p = 0,269), sem alcançar significância.
A maioria das ITUs foi causada por Escherichia coli (55%), seguida por Enterococcus faecalis (15%) e Proteus mirabilis (10%). A distribuição dos microrganismos foi semelhante entre os grupos.
E a função renal: há diferença entre os grupos?
Sim, e com um achado que merece atenção. A creatinina pós-operatória foi significativamente mais elevada no grupo sem cateter (1,07 mg/dL) em comparação ao grupo cateterizado (0,91 mg/dL; p = 0,001). A ureia pós-operatória, embora numericamente mais alta no grupo com sonda (60,3 vs 53,3 mg/dL), não atingiu significância.
Uma hipótese levantada pelos autores é que os pacientes sem cateter reduziram a ingestão oral de líquidos para evitar a dor e o desconforto associados à micção ou à troca de fraldas, o que poderia predispor à desidratação e à lesão renal aguda. De fato, a ingestão oral diária pré-operatória foi significativamente maior no grupo cateterizado (566 mL vs 512 mL; p < 0,01), enquanto a ingestão intravenosa foi equivalente.
Qual a mensagem prática desse estudo?
O estudo turco sugere que a cateterização vesical de curta duração (removida em até 24 horas após a cirurgia), realizada em condições estéreis, não aumenta significativamente o risco de ITU em idosos com fratura de quadril. Além disso, o uso da sonda pode ter um efeito colateral benéfico: ao evitar a restrição hídrica motivada pelo medo da incontinência ou da dor ao urinar, a cateterização pode contribuir para a manutenção da hidratação e, potencialmente, para a preservação da função renal.
Para o médico que atende na enfermaria ortopédica, a decisão pela sonda deve ser individualizada, considerando o estado geral do paciente, a capacidade de manter hidratação oral e as condições clínicas. O estudo reforça que, em pacientes selecionados, o cateterismo pode ser uma estratégia segura e até vantajosa.
Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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