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Ortopedia26 agosto 2025

Biotecnologia restauradora: dECM na reparação da cartilagem articular

dECM mostra eficácia promissora no reparo da cartilagem na osteoartrite, abrindo caminho para terapias regenerativas no futuro.

A osteoartrose (AO) é uma doença articular degenerativa altamente prevalente, e bastante debilitante, com impacto crescente em função do envelhecimento populacional e de fatores relacionados ao estilo de vida, que afeta mais de 500 milhões de pessoas no mundo.  No Brasil, esta condição acomete entre 4% e 33% dos adultos, dependendo do método diagnóstico e da população avaliada, tendo prevalência média estimada em 6,4%, tornando-se a terceira condição crônica mais comum no país.  

Estudos e revisões recentes vêm apresentando e destacando estratégias de ponta em medicina regenerativa com foco na melhoria da reparação da cartilagem e no alívio dos sintomas da osteoartrite (OA). 

No artigo “Efficacy of decellularized extracellular matrix (dECM) for articular cartilage repair in osteoarthritis (OA): a systematic review and meta-analysis”, de 2025, Wang et al., apresentam uma revisão sistemática e meta-análise sobre o uso da matriz extracelular descelularizada (dECM) para regeneração da cartilagem articular em modelos animais de osteoartrite (OA).  

A matriz extracelular descelularizada (dECM) é um biomaterial altamente promissor na engenharia tecidual por sua capacidade de mimetizar o microambiente nativo do tecido, oferecendo suporte estrutural e bioquímico à regeneração celular. Obtida por meio da remoção de células de tecidos naturais, a dECM preserva proteínas estruturais, proteoglicanos e sinais solúveis essenciais à adesão, proliferação e diferenciação celular.  

Estudos recentes demonstram seu potencial em plataformas musculoesqueléticas, especialmente na regeneração da cartilagem em osteoartrite, ao melhorar significativamente a integração celular e a reparação da matriz.  

Entretanto, limitações como baixa resistência mecânica, instabilidade química e a necessidade de padronização dos métodos de preparo ainda dificultam sua ampla aplicação clínica. Avanços no uso de dECM como scaffolds bioativos, incluindo sua combinação com células-tronco, PRP e impressão 3D, consolidam seu papel como ferramenta central na medicina regenerativa contemporânea. 

Uma recente revisão sistemática e meta-análise avaliou a eficácia da matriz extracelular descelularizada (dECM) no reparo da cartilagem articular em modelos de osteoartrite (OA).  

Veja também: Osteoartrite: quais as principais atualizações no tratamento?

cartilagem

Metodologia 

A busca foi conduzida em quatro bases de dados (PubMed, Embase, Web of Science e Cochrane Library) até junho de 2022.  

Foram incluídos estudos em modelos animais de OA que compararam dECM a controles, com desfechos relacionados à regeneração da cartilagem (grau histológico e defeitos cartilaginosos). Foram utilizados os critérios SYRCLE para avaliação do risco de viés e as análises estatísticas foram feitas com o software RevMan 5.3, aplicando modelo de efeitos aleatórios para heterogeneidade. 

Resultados 

De um total de 742 estudos identificados, 10 atenderam aos critérios de inclusão, envolvendo 193 animais. A meta-análise revelou que a dECM melhora significativamente os escores histológicos de cartilagem (SMD = –2,03; IC 95%: –2,73 a –1,33; p < 0,00001) e reduz os defeitos cartilaginosos (SMD = –1,67; IC 95%: –2,54 a –0,80; p = 0,0002) em comparação com os grupos controle. A heterogeneidade foi moderada a alta entre os estudos, e a análise de subgrupos mostrou que a dECM derivada de cartilagem foi mais eficaz que outras fontes (como matriz sinovial ou meniscal). A via de administração intra-articular também mostrou vantagens em relação a métodos mais invasivos. 

Discussão 

A dECM mostrou grande potencial como estratégia regenerativa para reparo de cartilagem na osteoartrite. Sua estrutura complexa, rica em colágeno, glicosaminoglicanos e fatores bioativos, mimetiza o ambiente fisiológico da cartilagem, favorecendo a proliferação e diferenciação condrogênica.  

Além disso, a origem do tecido e a via de entrega parecem influenciar diretamente a eficácia terapêutica. Os autores apontam que a dECM derivada de cartilagem possui maior compatibilidade biomecânica e bioquímica com o tecido alvo. No entanto, ainda há desafios relacionados à padronização dos métodos de descelularização e aplicação clínica. 

Limitações 

Os principais limites deste estudo incluem o pequeno número de estudos elegíveis, a variabilidade nos protocolos experimentais (espécies animais, tempos de acompanhamento, técnicas de avaliação) e a ausência de estudos clínicos em humanos. Também há risco de viés devido à falta de cegamento e randomização clara em muitos estudos. 

Mensagem prática 

A matriz extracelular descelularizada (dECM) demonstrou eficácia promissora no reparo de cartilagem em modelos de osteoartrite, especialmente quando derivada de cartilagem e aplicada por via intra-articular. Esses achados apoiam seu potencial uso futuro em terapias regenerativas humanas, embora sejam necessários ensaios clínicos robustos para validar sua segurança, eficácia e padronização. 

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Referências bibliográficas

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