A infecção periprotética (IP) continua sendo uma das complicações mais temidas na artroplastia total de joelho (ATJ). Apesar de ocorrer em apenas 1 a 3% dos pacientes, ela é responsável por cerca de 25% das revisões e representa um impacto significativo na morbidade, na qualidade de vida e nos custos ao sistema de saúde. Identificar fatores de risco modificáveis ou que permitam um manejo diferenciado, é uma prioridade.
Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Virginia Commonwealth University, em parceria com as universidades Johns Hopkins e George Washington, trouxe à tona um fator que nem sempre recebe nossa atenção: a história prévia de celulite nos membros inferiores.
Esse estudo foi publicado no “Journal of Arthroplasty ” na edição de março de 2026. A pesquisa analisou dados de mais de 105 mil pacientes submetidos a ATJ eletiva, utilizando o banco de dados PearlDiver Mariner, que reúne informações de mais de 165 milhões de pacientes nos Estados Unidos.

Celulite prévia aumenta o risco de infecção periprotética?
A resposta é sim, e de forma expressiva. Após pareamento por idade, sexo, índice de comorbidades de Charlson, obesidade, diabetes e tabagismo, os pacientes com história de celulite prévia apresentaram uma incidência de IP em dois anos de 7,2%, contra 3,1% no grupo controle. Isso representa um aumento de risco 2,4 vezes maior de desenvolver infecção periprotética.
Os achados sugerem que a celulite, mesmo quando adequadamente tratada, pode deixar sequelas teciduais que afetam a resposta imune local, criando um ambiente propício para a instalação de infecções em torno do implante.
Aguardar um período após a celulite pode fazer diferença?
Sim e essa é talvez a mensagem mais prática do estudo. Pacientes que tiveram celulite dentro de um ano da cirurgia apresentaram uma incidência de infecção de 9,3%, contra 4,7% daqueles cujo episódio ocorreu há mais de um ano. Após ajuste para fatores de confusão, o risco foi duas vezes maior no grupo com celulite recente.
Isso indica que o intervalo entre a infecção de pele e a artroplastia é importante. A inflamação residual e a possível colonização subclínica podem tornar o sítio cirúrgico mais vulnerável. Do ponto de vista prático, sempre que possível, adiar o procedimento por pelo menos um ano após um episódio de celulite parece ser uma estratégia prudente.
A profilaxia antibiótica prolongada resolve o problema?
Os dados mostram que não completamente. Apesar de os pacientes com história de celulite terem recebido profilaxia antibiótica oral estendida com maior frequência, a incidência de infecção nesse grupo ainda foi superior à dos que não receberam a profilaxia (7,9% versus 4,7%). É provável que exista um viés de indicação: pacientes de maior risco recebem a profilaxia justamente por serem considerados mais vulneráveis. Ainda assim, fica claro que a antibioticoprofilaxia prolongada, isoladamente, não é capaz de anular o risco adicional imposto pela celulite prévia.
O que muda na prática?
O estudo reforça a importância de uma anamnese detalhada. Perguntar sobre episódios prévios de celulite, especialmente no membro que será operado, deve fazer parte da avaliação pré-operatória de rotina. Identificar esses pacientes permite não apenas um planejamento cirúrgico mais cauteloso, mas também uma vigilância pós-operatória mais rigorosa.
Além disso, a otimização de fatores como o controle glicêmico, peso e saúde da pele, ganha ainda mais relevância. Estratégias adicionais de prevenção, como o uso de sabonetes antissépticos nos dias que antecedem a cirurgia e a erradicação de focos infecciosos a distância, devem ser consideradas.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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