A recomendação de antibioticoprofilaxia antes de procedimentos odontológicos em pacientes com próteses articulares sempre foi um campo minado. O conflito histórico entre diretrizes da ortopedia e da odontologia gerou décadas de inconsistência, ansiedade para os pacientes e custos elevados ao sistema.
Por trás dessa prática estava uma crença intuitiva, mas frágil: a bacteremia decorrente de manipulação gengival poderia causar uma infecção hematogênica envolvendo o implante. Mas será que as evidências científicas disponíveis sustentam essa preocupação?
Pesquisadores de Nova Orleans, conduziram uma revisão sistemática com metanálise para avaliar a associação entre antibioticoprofilaxia odontológica e o risco de infecção periprotética (IP) após artroplastia total de quadril e joelho.

Quais foram os métodos selecionados?
Foram incluídos quatro estudos de coorte retrospectivos, totalizando 157.466 pacientes submetidos a procedimentos odontológicos com manipulação gengival. O objetivo principal foi comparar a incidência de PJI entre pacientes que receberam ou não profilaxia antibiótica antes do procedimento odontológico. O trabalho foi publicado em 2026 no Journal of Arthroplasty.
Qual foi a incidência de infecção periprotética após procedimentos odontológicos?
Muito baixa, independentemente do uso de antibióticos. A incidência de IP variou de 0,07% a 0,3% entre os pacientes que receberam profilaxia e de 0,07% a 0,18% entre aqueles que não receberam. Nenhum dos estudos individuais demonstrou redução estatisticamente significativa no risco de infecção com o uso de antibióticos.
O que mostrou a metanálise?
A metanálise mostrou que não houve diferença significativa no risco de IP entre os grupos com e sem profilaxia. O odds ratio agrupado foi de 1,12 (IC95% 0,66-1,92), indicando um risco ligeiramente maior, porém não significativo, no grupo que recebeu antibióticos. A heterogeneidade entre os estudos foi nula (I² = 0%), o que sugere consistência nos achados.
Em outras palavras, tomar antibiótico antes do dentista não reduziu o risco de infecção da prótese. E, se houve alguma tendência, foi para um risco discretamente maior no grupo medicado.
Existem grupos de maior risco que poderiam se beneficiar da profilaxia?
Sim, mas esses fatores de risco não estão relacionados ao procedimento odontológico em si. Os estudos incluídos identificaram que revisão de artroplastia, obesidade (IMC > 30), insuficiência cardíaca congestiva e diabetes com lesão de órgão-alvo foram preditores independentes de IP. No entanto, mesmo nesses subgrupos, não foi demonstrado benefício da profilaxia antibiótica especificamente antes de procedimentos odontológicos.
E os riscos da antibioticoprofilaxia desnecessária?
Os autores destacam que o uso indiscriminado de antibióticos não é inócuo. Reações adversas, incluindo reações alérgicas e eventos gastrointestinais, são bem documentadas. Mais importante, o uso de clindamicina e amoxicilina-clavulanato, comuns na profilaxia odontológica está associado a maior risco de infecção por Clostridium difficile e ao aumento da resistência bacteriana. Estima-se que os Estados Unidos gastem cerca de US$ 59 milhões anualmente com profilaxia odontológica para pacientes com próteses, um custo que tende a crescer com o aumento do volume de artroplastias.
Qual a mensagem prática para o ortopedista e o dentista?
A metanálise publicada é a mais abrangente até o momento e reforça o que as diretrizes mais recentes da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) já sugeriam: o uso rotineiro de antibioticoprofilaxia antes de procedimentos odontológicos em pacientes com artroplastia primária de quadril ou joelho não reduz o risco de infecção periprotética.
A qualidade da evidência ainda é limitada (nenhum ensaio clínico randomizado está disponível), mas a consistência dos achados em mais de 150 mil pacientes é impressionante. A mensagem para o paciente é clara: escovar os dentes e fazer limpezas periódicas é mais importante para reduzir a carga bacteriana do que tomar antibiótico antes de ir ao dentista.
A exceção ainda não validada por estudos específicos poderia ser pacientes de altíssimo risco (artroplastias de revisão, imunossuprimidos, portadores de próteses com infecção prévia). Mas, para a grande maioria, a profilaxia antibiótica odontológica parece ser uma prática sem benefício comprovado e com custos e riscos reais.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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