A ruptura aguda do tendão quadricipital é uma lesão relativamente rara, mas potencialmente devastadora. O mecanismo extensor do joelho fica comprometido, e a intervenção cirúrgica precoce é essencial para restaurar a função e evitar sequelas permanentes. Por décadas, a técnica de túneis ósseos transpatelares foi considerada o padrão ouro. Mas será que as âncoras ósseas, amplamente utilizadas em outras reconstruções, podem oferecer resultados equivalentes ou superiores?
Pesquisadores de Jerusalém, conduziram um estudo comparativo para responder a essa pergunta. Os autores analisaram retrospectivamente 85 pacientes submetidos a reparo cirúrgico de ruptura aguda do tendão quadricipital entre 2022 e 2025, com seguimento mínimo de um ano. O trabalho foi publicado no periódico Injury em fevereiro de 2026.

A técnica com âncoras é mais rápida?
Sim, e a diferença foi significativa neste estudo. O tempo cirúrgico médio no grupo tratado com âncoras foi de 84 minutos, contra 103 minutos no grupo submetido a túneis ósseos, uma redução de aproximadamente 20%. Essa diferença pode ser atribuída à maior complexidade técnica da perfuração e passagem de fios pelos túneis, especialmente em ossos osteoporóticos ou com variações anatômicas.
Em uma população com idade média superior a 60 anos e alta prevalência de comorbidades (43,5% dos pacientes apresentavam pelo menos uma doença associada, como diabetes, doença renal crônica ou doenças inflamatórias), a redução do tempo cirúrgico pode ter impacto relevante na morbidade perioperatória.
Os resultados funcionais são equivalentes?
Os dados mostram que sim. Aos 12 meses de pós-operatório, os escores funcionais não diferiram entre as duas técnicas. O IKDC médio foi 56,9 no grupo âncoras e 58,2 no grupo túneis (p = 0,7). O escore de Lysholm também foi semelhante: 86,6 versus 88,1 (p = 0,61). A dor pela escala visual analógica também não mostrou diferença significativa.
Esses números indicam que ambas as técnicas são capazes de restaurar a função do mecanismo extensor de forma satisfatória, permitindo que a maioria dos pacientes retorne às suas atividades habituais.
E as complicações, são diferentes?
A taxa de complicações foi baixa e comparável entre os grupos. Dois pacientes do grupo âncoras apresentaram falha da fixação, um deles devido a uma queda no sexto semana pós-operatória, e necessitaram de revisão com conversão para túneis ósseos. Infecção pós-operatória ocorreu em dois pacientes, um de cada grupo, ambos tratados com antibioticoterapia sem necessidade de nova intervenção.
A literatura sugere que as âncoras podem oferecer resistência equivalente ou até superior aos túneis ósseos, mas o estudo clínico confirma que, na prática, os resultados se equivalem.
Qual técnica escolher, então?
A resposta, como quase sempre em medicina, é: depende. Ambas as técnicas são eficazes e seguras, e a decisão deve levar em conta fatores individuais. Pacientes com má qualidade óssea, por exemplo, podem se beneficiar das âncoras, que não dependem da integridade do osso para a passagem dos fios. Já em locais com recursos limitados, a técnica com túneis ósseos tem a vantagem de não exigir implantes específicos e utilizar fios de sutura de baixo custo.
O estudo israelense também chama atenção para a importância do diagnóstico precoce. Quase metade dos pacientes foi diagnosticada apenas com base na história e exame físico, a tríade clássica de defeito palpável, incapacidade para elevação da perna estendida e patela baixa. Quando o diagnóstico foi confirmado por imagem, o tempo até a cirurgia foi significativamente maior, reforçando o valor da suspeita clínica.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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