A necrose retiniana aguda bilateral (BARN) caracteriza-se por um processo infeccioso ocular que leva à vasculite e à inflamação da câmara anterior e do vítreo com evolução para necrose e descolamento da retina, podendo evoluir para cegueira.
Ela é uma síndrome rara com manifestações clínicas características, porém de difícil diagnóstico e tratamento. Na maioria dos casos, um quadro viral é confirmado por reação em cadeia da polimerase (PCR) em amostras de humor aquoso e vítreo.
Esta revisão tem o objetivo de compreender melhor a patogênese, direcionando assim o diagnóstico e o melhor tratamento para BARN.
Discussão
A bibliografia utilizada foi obtida por pesquisa no PubMed, com maior foco em publicações a partir de 2010. Dos 409 artigos selecionados, foram avaliados 1013 casos de BARN.
A idade de aparecimento variou de 5 a 76 anos, recém-nascidos prematuros e a termo também foram descritos. O acometimento de pacientes imunocomprometidos é mais frequente, mas há casos em imunocompetentes.
A infecção viral é a causa mais frequente de BARN, sendo o Varicella zoster (VZV) o mais frequente, seguido pelo Herpes simplex 1 e 2 (HSV1 e HSV2), Citomegalovírus (CMV) e vírus Epstein-Barr (EBV). A retinite, na maioria dos casos, começa na periferia da retina e tem envolvimento centrípeto, exceto para formas relacionadas ao EBV que afetam mais a região macular com oclusão arterial. O início da terapia antiviral precoce reduz o risco de envolvimento ocular contralateral. Outras causas como infecções bacterianas, fúngicas, doenças autoimunes e toxicidade de drogas, como antineoplásicos, também podem estar associados ao quadro.
Quadro clínico
O quadro clínico caracteriza-se por pan-uveítes graves, com vasculite retiniana envolvendo veias e artérias, áreas periféricas esbranquiçadas ou amareladas de retinite necrosante multifocal podendo ou não estar associadas a hemorragias intrarretinais e edema papilar. A inflamação tem origem na periferia da retina e se estende progressivamente em direção ao pólo posterior, afetando potencialmente a mácula e o nervo óptico.
Outras manifestações incluem vitrite, esclerite, uveíte anterior, a presença de precipitados ceráticos finos ou semelhantes a muton fat e aumento da pressão intraocular com fechamento agudo do ângulo. A complicação mais grave é o descolamento regmatogênico da retina, com prognóstico ruim. Outras complicações incluem o desenvolvimento de buracos maculares e vasculopatia isquêmica do nervo óptico. Clinicamente, o paciente apresenta queixa de turvação visual, dor periorbital, piora da acuidade visual, moscas volantes, fotofobia, dor a movimentação ocular, hiperemia conjuntival e sensação de corpo estranho.
Um início precoce do diagnóstico e da terapia associam-se a melhor prognóstico visual.
O que é o BARN?
BARN é uma vasculite inflamatória de diagnóstico clínico, porém exames como a angiografia fluoresceinica(FA) e tomografia de coerência óptica (OCT) podem ajudar o diagnóstico identificando a extensão da inflamação.
Tratamento
O tratamento clínico inclui a terapia com antiviral, aciclovir intravenoso sistêmico ou valaciclovir oral, por 7 a 10 dias. Seguida pela manutenção do tratamento por 4 meses. A avaliação da função renal desses pacientes deve ser realizada, com o ajuste das dosagens em casos de insuficiência renal. Além dos corticosteroides orais em dose imunossupressores após o início da terapia antiviral sistêmica.
A aplicação intravítrea de antiviral foi proposta em combinação com terapia antiviral oral ou intravenosa, para casos de maior gravidade.
O descolamento de retina regmatogênico pode ser evitado com a fotocoagulação retiniana (PRP), sendo indicada em todos os casos de retinite extensa com três áreas de disco envolvidas. A vitrectomia via pars plana pode ser uma opção nos casos de vitreite com alteração visual ou descolamento de retina.
O que podemos concluir para a prática médica?
O BARN é um quadro grave com consequências visuais desfavoráveis se não for diagnosticado e tratado no tempo correto. Embora o VZV seja o agente etiológico mais frequente, é sempre importante pensar em outras causas. As alterações à retina tendem a progredir muito rapidamente. A única prevenção atual às complicações são o diagnóstico precoce e o tratamento da causa subjacente.
Portanto, diante da suspeita de BARN é de suma importância a intervenção direcionada com base no reconhecimento clínico e laboratorial.
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