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Oftalmologia17 fevereiro 2026

Polimento via fluxo: redução da ruptura na facoemulsificação

Polimento por fluxo reduz ruptura da cápsula posterior e acelera a recuperação visual na facoemulsificação. Confira os dados do estudo.

A catarata é a principal causa de cegueira reversível globalmente. A facoemulsificação, via fragmentação ultrassônica do cristalino, é o atual padrão-ouro de intervenção cirúrgica para a extração da catarata. Apesar da alta taxa de sucesso, complicações como a ruptura de cápsula posterior (RCP) e a opacificação de cápsula posterior (OCP) ainda representam desafios significativos que podem comprometer o resultado visual final.  

A RCP é uma complicação intraoperatória crítica que pode levar a descolamento de retina, hemorragia vítrea e instabilidade da lente intraocular (LIO). A OCP, por sua vez, resulta da proliferação de células epiteliais do cristalino. 

Tradicionalmente, o polimento da cápsula posterior é realizado mecanicamente com a ponta da caneta de irrigação/aspiração (I/A). Contudo, esse método além de não remover completamente as células epiteliais, aumenta o risco de danos à cápsula, especialmente em idosos. Em contrapartida, o polimento por jato de fluido (fluid-jet polishing) emprega a dinâmica de fluidos pulsátil, surgiu como uma alternativa promissora, demonstrando limpeza cortical superior enquanto mantém a integridade capsular.  

Apesar das evidências prévias que apoiam os benefícios do polimento por jato de fluido na redução da OCP, seu papel potencial na prevenção da RCP permanece insuficientemente caracterizado. Com isso, foi conduzido um estudo prospectivo e randomizado no Chuzhou First People’s Hospital (China), publicado em 2025 na International ophthalmology que buscou avaliar se essa técnica reduz a incidência de RCP e melhora os resultados visuais.  

Veja também: A ingestão de nutrientes influencia no desenvolvimento da catarata? – Portal Afya

MÉTODOS 

Participantes e desenho do estudo 

Foi realizado um ensaio clínico randomizado e controlado no qual foram incluídos 290 olhos de pacientes com catarata senil com idades entre 40 e 95 anos que foram submetidos à facoemulsificação entre janeiro e dezembro de 2024. Esses pacientes foram divididos em dois grupos:  

  • Grupo do polimento via fluído (n=144): Nesse grupo, o polimento da cápsula posterior foi realizado direcionando um fluxo de fluido contra a cápsula posterior para remover o córtex residual e as células epiteliais cristalinianas antes do implante da LIO, sem contato mecânico.  
  • Grupo do polimento mecânico (n=146): Nesse grupo foi realizado o polimento da maneira convencional utilizando a ponta da I/A.  

Critérios de Inclusão e Exclusão 

Foram incluídos pacientes com dilatação pupilar adequada e esclerose nuclear graus 1 a 4. Foram excluídos casos de cataratas complexas (como catarata polar posterior, subluxação), miopia ou hipermetropia extremas, ou outras patologias oculares complexas.  

Desfechos Avaliados 

O desfecho primário avaliado foi a incidência de ruptura de cápsula posterior (RCP). Os desfechos secundários avaliados foram a melhor acuidade visual corrigida (BCVA) no pós-operatório (1 dia e 1 mês) e taxa de opacificação de cápsula posterior (OCP) em 1 mês.  

RESULTADOS 

Incidência de Ruptura de Cápsula Posterior (RCP) 

O grupo submetido ao polimento via fluxo de fluido não apresentou nenhum caso de RCP.  O grupo do polimento mecânico apresentou 11 casos de RCP (7,53%), uma diferença estatisticamente significativa (p=0,0012). A maioria das RCPs ocorreu durante a limpeza do córtex.  

Recuperação visual 

O grupo do polimento via fluido apresentou uma recuperação visual mais rápida. No primeiro dia de pós-operatório, 88,7% dos pacientes do grupo de polimento por fluido apresentaram BCVA > 0,5 contra 68,6% do grupo de polimento mecânico (p<0,05). Após um mês, essa superioridade manteve-se, com melhores médias de acuidade visual no grupo do polimento por fluido.  

Opacificação de cápsula posterior (OCP) 

Em um mês de seguimento, a incidência de OCP foi significativamente menor no grupo do polimento por fluido (7,7%) em comparação ao grupo do polimento mecânico (18,5%) (p<0,05).   

Análise de subgrupo 

A análise estratificada evidenciou que o benefício na prevenção da RCP foi estatisticamente significativo em pacientes acima de 60 anos (p<0,0001), sugerindo que a técnica é protetora em cápsulas mais frágeis associadas ao envelhecimento. 

DISCUSSÃO 

O estudo evidenciou que o polimento da cápsula posterior via fluido é uma técnica segura ao eliminar o contato mecânico com a cápsula, o que reduz drasticamente o risco de RCP iatrogênica. Além disso, essa técnica mostrou-se eficaz na remoção das células epiteliais remanescentes e restos corticais, o que culminou em menores taxas de OCP a curto prazo.  

Acredita-se que a limpeza mais completa e a menor manipulação mecânica reduzam a inflamação pós-operatória, justificando a recuperação visual mais rápida observada no primeiro dia pós-cirúrgico.  

Ademais, o estudo ressalta que a fragilidade capsular aumenta com a idade, o que torna o polimento mecânico mais arriscado em idosos. O polimento via fluidos mitiga esse risco ao utilizar a hidrodinâmica em detrimento da tração e/ou fricção física.  

Não foram observadas complicações relacionadas à hidratação vítrea ou moscas volantes no grupo de estudo.  

LIMITAÇÕES 

A principal limitação do estudo é o período curto de seguimento (um mês). Apesar de os resultados quanto a OCP serem promissores, a opacidade de capsula clinicamente significativa ocorre meses ou anos após a cirurgia. Alem disso, o estudo foi conduzido em casos “padrão”, excluindo pupilas pequenas ou zônulas fracas, o que limita a generalização para casos complexos.  

MENSAGEM PRÁTICA 

O polimento da capsula posterior via fluxo de fluido mostrou-se uma alternativa superior ao tradicional polimento mecânico no que tange a segurança. A técnica zerou a taxa de ruptura de cápsula posterior nesse trabalho e promoveu uma reabilitação visual mais rápida. O uso dessa técnica é de grande valia sobretudo em pacientes idosos (acima de 60 anos), onde a fragilidade capsular torna o polimento mecânico mais arriscado.  

Estudos com seguimentos mais longos são necessários, porém, os resultados são, por hora, animadores e favoráveis à adoção dessa técnica, especialmente em pacientes mais idosos.  

Autoria

Foto de Pedro Hélio Estevam Ribeiro Júnior

Pedro Hélio Estevam Ribeiro Júnior

Graduação - Medicina: Universidade Federal de Uberlândia • Residência - Oftalmologia: Universidade Federal de Uberlândia • Título de Especialista em Oftalmologia pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO/AMB) • Fellowship - Glaucoma Clínico e Cirúrgico - Glaucoma Instituto • Mestrado - Universidade Federal de Uberlândia • Preceptor de Oftalmologia no Hospital Universitário Sagrada Família / IMEPAC (Araguari) • Chefe do setor de Glaucoma do Hospital Universitário Sagrada Família / IMEPAC (Araguari).

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