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Medicina de Família27 julho 2026

Doença pilonidal no Brasil: panorama epidemiológico no SUS

Estudo avaliou 45.915 cirurgias para doença pilonidal no SUS e mostrou crescimento dos procedimentos no Brasil.
Por Hiago Bastos

A doença pilonidal (DP) é uma afecção inflamatória crônica da região sacrococcígea que acomete principalmente adultos jovens, estando associada a fatores como obesidade, sedentarismo, traumatismos locais, sulco interglúteo profundo, excesso de pelos, higiene inadequada, histórico familiar e algumas condições hormonais, como a síndrome dos ovários policísticos.

Embora importantes avanços tenham ocorrido no tratamento cirúrgico nas últimas décadas, especialmente com o desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas, ainda existem poucas informações epidemiológicas abrangentes sobre a doença no Brasil.

Diante dessa lacuna, os autores realizaram o primeiro estudo nacional de base populacional destinado a caracterizar o panorama epidemiológico das cirurgias para doença pilonidal realizadas no Sistema Único de Saúde (SUS), avaliando sua distribuição geográfica, evolução temporal e possíveis desigualdades regionais.

Como o estudo analisou os dados do SUS?

Trata-se de um estudo retrospectivo, descritivo e populacional que analisou todos os procedimentos cirúrgicos para doença pilonidal registrados no DATASUS entre janeiro de 2014 e dezembro de 2023.

Os dados foram obtidos a partir dos códigos específicos de procedimentos cirúrgicos para seio pilonidal e correlacionados às estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), permitindo o cálculo das taxas de prevalência por 100.000 habitantes.

Para avaliar a evolução temporal, os autores utilizaram modelos de regressão linear, enquanto as comparações entre as diferentes regiões brasileiras foram realizadas pelo teste do qui-quadrado de Pearson com correção de Bonferroni, buscando identificar diferenças estatisticamente significativas entre os grupos analisados.

Quantas cirurgias foram realizadas no período?

Durante o período estudado, foram registradas 45.915 cirurgias para tratamento da doença pilonidal no SUS, correspondendo a uma média anual de aproximadamente 4.591 procedimentos.

A prevalência nacional média foi de 2,42 casos por 100.000 habitantes, variando entre 1,60 e 3,13 casos por 100.000 habitantes ao longo da série histórica.

Observou-se crescimento progressivo no número absoluto de cirurgias entre 2014 e 2019, seguido por uma redução importante durante os anos de 2020 e 2021, coincidindo com a pandemia de COVID-19, quando inúmeros procedimentos eletivos foram suspensos em todo o país.

Com a retomada das atividades hospitalares, verificou-se recuperação dos números em 2022 e novo aumento em 2023, ano que apresentou a maior prevalência registrada em toda a série histórica.

Quais regiões tiveram maiores taxas?

A análise regional revelou marcadas desigualdades na distribuição dos procedimentos. A Região Sul apresentou, de forma consistente, as maiores taxas de cirurgias para doença pilonidal durante todo o período analisado, com média de 4,27 casos por 100.000 habitantes, seguida pelas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.

Em contraste, a Região Norte apresentou as menores taxas nacionais, com média inferior a um caso por 100.000 habitantes.

A análise estatística confirmou que a prevalência observada na Região Sul foi significativamente superior à de todas as demais regiões, enquanto a Região Norte apresentou taxas significativamente inferiores.

Os autores destacam que essas diferenças provavelmente refletem múltiplos fatores, incluindo maior disponibilidade de serviços especializados, diferenças socioeconômicas, acesso aos sistemas de saúde, organização da rede assistencial e características demográficas da população brasileira.

Como foi a evolução temporal nas regiões?

Na avaliação das tendências temporais, verificou-se crescimento nacional estatisticamente significativo das cirurgias ao longo da última década, desconsiderando-se o período impactado pela pandemia.

O aumento médio foi de 0,08 casos por 100.000 habitantes ao ano.

Regionalmente, o maior crescimento ocorreu na Região Nordeste, seguida pelas regiões Norte e Sudeste, todas com significância estatística. A Região Sul apresentou tendência de crescimento, porém sem alcançar significância estatística, enquanto a Região Centro-Oeste permaneceu relativamente estável durante o período estudado.

Esses resultados indicam que, apesar das diferenças regionais persistentes, a doença pilonidal vem apresentando expansão progressiva em praticamente todo o território nacional.

O que explica o crescimento da doença pilonidal?

Na discussão, os autores relacionam seus achados às tendências observadas em estudos internacionais, particularmente na Alemanha, onde também foi documentado aumento expressivo da incidência da doença nas últimas décadas.

Eles sugerem que mudanças no estilo de vida da população, como aumento do sedentarismo, crescimento da obesidade, maior tempo em posição sentada e expansão dos centros urbanos, podem estar contribuindo para esse comportamento epidemiológico.

Além disso, ressaltam que a doença acomete predominantemente homens jovens, geralmente em idade produtiva, produzindo importante impacto social e econômico devido ao afastamento das atividades laborais, recorrências frequentes e necessidade de múltiplas intervenções cirúrgicas.

Embora o banco de dados utilizado não permitisse estratificação por sexo, a literatura demonstra razão homem:mulher variando entre 2:1 e 4:1.

O estudo também revisa os principais fatores de risco já estabelecidos para a doença pilonidal, incluindo história familiar, colonização bacteriana folicular, traumatismos repetitivos, hipertricose, hiperidrose, obesidade, sedentarismo e má ventilação da região interglútea.

Os autores lembram ainda que determinadas ocupações caracterizadas por longos períodos sentados, como motoristas e trabalhadores administrativos, permanecem associadas a maior incidência da doença, justificando historicamente a denominação de jeep disease durante a Segunda Guerra Mundial.

Também é discutida a influência de fatores étnicos, uma vez que indivíduos caucasianos apresentam incidência superior à observada em populações africanas e asiáticas, aspecto que pode contribuir para parte das diferenças epidemiológicas observadas entre as regiões brasileiras.

Tratamento e impacto clínico

Embora a doença pilonidal seja considerada benigna, os autores enfatizam que sua evolução pode ser marcada por recorrências, formação de múltiplos trajetos fistulosos, abscessos de repetição, dor crônica e importante comprometimento da qualidade de vida.

Em situações excepcionais, processos inflamatórios crônicos prolongados podem evoluir para transformação maligna, principalmente carcinoma espinocelular.

Quanto ao tratamento, destacam que as técnicas convencionais continuam amplamente empregadas. Porém, abordagens minimamente invasivas, como o tratamento endoscópico (EPSiT) e diferentes modalidades de laser (SILAC, SILAT e MELPi), vêm demonstrando recuperação mais rápida, menor dor pós-operatória e menores taxas de recorrência, apesar de ainda apresentarem disponibilidade restrita no sistema público de saúde brasileiro.

Limitações e implicações para o SUS

Os autores reconhecem limitações importantes do estudo. A utilização de banco de dados administrativos impossibilitou a obtenção de informações clínicas detalhadas, como gravidade da doença, técnica cirúrgica empregada, complicações pós-operatórias e recorrências, além de excluir pacientes tratados exclusivamente na rede privada ou por métodos conservadores.

Apesar dessas limitações, ressaltam que o grande número de procedimentos analisados, a cobertura nacional do DATASUS e o acompanhamento de uma década conferem elevada robustez aos resultados.

Defendem ainda a criação de registros nacionais integrando os setores público e privado, bem como políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce, prevenção e ampliação do acesso às técnicas minimamente invasivas.

Mensagem prática

Conclui-se que a doença pilonidal apresenta crescimento contínuo do número de procedimentos cirúrgicos realizados no Brasil, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.

Embora a prevalência nacional permaneça inferior à observada em países desenvolvidos, a tendência ascendente demonstra que a doença constitui um problema emergente de saúde pública, evidenciando desigualdades regionais importantes e reforçando a necessidade de investimentos em prevenção, organização da assistência especializada e incorporação de novas tecnologias terapêuticas no Sistema Único de Saúde.

Autoria

Foto de Hiago Bastos

Hiago Bastos

Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI. Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos. Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium). Especialista em ECMO pela ELSO. Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017. Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA). Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.

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