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Medicina de Família27 agosto 2025

A longitudinalidade realmente reduz desfechos negativos na APS?

Estudo dinamarquês mostra que a longitudinalidade na APS reduz mortalidade, hospitalizações e uso de serviços de emergência.
Por Renato Bergallo

A longitudinalidade é conhecida como um dos atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde (APS), sendo frequentemente associada à melhoria dos resultados em saúde. Contudo, apesar dessa importância reconhecida, ainda há lacunas sobre o real impacto do tempo de vínculo com uma mesma unidade de saúde sobre os desfechos dos pacientes, especialmente em nível populacional. Isso torna-se ainda mais relevante diante dos atuais desafios dos sistemas de saúde, como o aumento da prevalência de doenças crônicas, o envelhecimento populacional e a fragmentação da atenção – fatores que exigem uma APS ainda mais resolutiva. Nesse sentido, um estudo recentemente publicado na revista Lancet Primary Care, conduzido na Dinamarca, investigou a associação entre a continuidade longitudinal do cuidado em clínicas de APS e desfechos como mortalidade, internações e utilização de serviços médicos fora do horário habitual de atendimento. 

Veja mais: Atributos da atenção primária: contribuição da longitudinalidade

Os autores realizaram um estudo de coorte de base populacional utilizando dados de registros nacionais dinamarqueses, abrangendo o período de 1º de janeiro de 2006 a 31 de dezembro de 2021. Foram incluídos 4.530.293 adultos com 18 anos ou mais, acompanhados durante 12 meses, com início em janeiro de 2022. Os pesquisadores utilizaram modelos de regressão para analisar mortalidade por todas as causas, hospitalizações não planejadas e atendimentos fora do horário habitual. As análises foram ajustadas por características demográficas, socioeconômicas e comorbidades, utilizando como variáveis principais o tempo de vínculo atual com a unidade de APS e o número de mudanças prévias de unidades. 

O estudo encontrou achados significativos, indicando que um tempo reduzido de vínculo com uma mesma unidade esteve consistentemente associado a desfechos negativos. Pacientes com vínculo inferior a um ano com a unidade de saúde atual tiveram aumento de 21% no risco de mortalidade por todas as causas (HR: 1,21; IC 95%: 1,17-1,25) em comparação aos pacientes vinculados por mais de 10 anos. Esses pacientes também apresentaram aumento na utilização de serviços de emergência hospitalar em 25% (IRR: 1,25; IC 95%: 1,21-1,30) e aumento no uso de serviços médicos fora do horário habitual em 21% (IRR: 1,21; IC 95%: 1,17-1,26). Além disso, pacientes com múltiplas mudanças prévias de unidades de APS também mostraram piores resultados, especialmente quando os novos vínculos eram recentes e/ou curtos. 

Esses resultados têm implicações práticas para o contexto médico, já que a adoção de estratégias que estimulem a manutenção do vínculo longitudinal entre pacientes e unidades de APS parecem contribuir significativamente para a melhoria dos resultados em saúde, além de otimizar o uso racional dos recursos assistenciais. O estudo reforça a ideia de que a longitudinalidade não apenas beneficia o indivíduo, mas também melhora a coordenação do cuidado – outro atributo essencial da APS – reduzindo a fragmentação entre os diferentes níveis de atenção. 

Um ponto importante discutido pelos autores refere-se justamente a um dos aspectos da coordenação do cuidado: a organização dos registros e o compartilhamento dos casos entre os diferentes profissionais de uma mesma unidade. Na Dinamarca, mesmo em unidades onde pacientes consultam com diversos profissionais, a estrutura organizacional e o compartilhamento de registros possibilitam uma longitudinalidade eficaz, ressaltando que continuidade assistencial não depende exclusivamente do vínculo pessoal com um único profissional, mas também da organização e gestão adequada dos serviços da unidade de saúde. 

Em conclusão, o recente estudo dinamarquês fornece evidências importantes sobre o valor da longitudinalidade como um componente essencial para a qualidade assistencial da APS. Os achados reforçam a recomendação de que iniciativas que promovam o vínculo longitudinal entre pacientes e clínicas devem ser priorizadas, visando melhorias na coordenação do cuidado e na redução de desfechos adversos em saúde. Essas medidas têm potencial para beneficiar não apenas os pacientes individualmente, mas também para promover uma maior eficiência e eficácia dos sistemas de saúde como um todo, melhorando, assim, a saúde das populações de forma sustentável e duradoura.

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Referências bibliográficas

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