A cirurgia endoscópica da coluna lombar tem se consolidado como alternativa minimamente invasiva para o tratamento de diversas afecções da coluna vertebral, proporcionando menor agressão tecidual, redução da dor pós-operatória, recuperação mais rápida e menor tempo de internação quando comparada às técnicas convencionais.
Entretanto, sua curva de aprendizado é considerada longa e tecnicamente exigente, principalmente devido à necessidade de coordenação motora refinada, orientação espacial baseada em imagens bidimensionais e manipulação simultânea de instrumentos em campo operatório restrito.
Nesse contexto, os simuladores cirúrgicos representam uma importante ferramenta educacional, permitindo o desenvolvimento de habilidades técnicas em ambiente seguro, sem riscos ao paciente.
O presente estudo teve como objetivo validar um simulador sintético de baixo custo para treinamento em endoscopia lombar, avaliando sua capacidade de promover transferência de habilidades do ambiente de simulação para a prática cirúrgica real, além de analisar sua aceitação como ferramenta de ensino médico.
Como foi conduzido o estudo?
Foi realizado um ensaio experimental prospectivo e randomizado envolvendo 40 estudantes de Medicina sem experiência prévia em cirurgia endoscópica da coluna.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: grupo intervenção, composto por 20 estudantes submetidos ao treinamento prático utilizando o simulador sintético, e grupo controle, formado por 20 estudantes que não realizaram treinamento.
Após essa etapa, todos os participantes executaram uma endoscopia diagnóstica supervisionada em ambiente cirúrgico real. Os procedimentos foram integralmente gravados e posteriormente analisados por um avaliador independente e cego quanto à alocação dos participantes.
Foram mensurados diversos indicadores objetivos de desempenho técnico, incluindo tempo total do procedimento, número de desvios do olhar para fora do monitor (look-downs), perda de instrumentos, duração dessas perdas, número de intervenções do cirurgião supervisor e desempenho global por meio da escala Global Operative Assessment of Laparoscopic Skills (GOALS).
Além disso, foi aplicado um questionário em escala de Likert para avaliar a percepção dos participantes sobre a utilidade do simulador no processo de aprendizagem.
O simulador melhorou o desempenho em cirurgia real?
Os resultados demonstraram superioridade consistente do grupo treinado em praticamente todos os parâmetros avaliados. O treinamento com o simulador proporcionou redução de 43,7% no tempo total necessário para realização da cirurgia, indicando maior eficiência técnica durante o procedimento.
Também foi observada diminuição de 85,3% no número de look-downs, variável considerada um importante marcador da coordenação visuoespacial e da capacidade de orientação por imagem indireta.
Houve ainda redução de 92,8% na ocorrência de perda de instrumentos, diminuição de 93,3% no tempo total em que os instrumentos permaneceram fora do campo operatório e redução de 75,9% nas intervenções realizadas pelo cirurgião supervisor, demonstrando maior autonomia e fluidez técnica entre os participantes previamente treinados.
Todos esses resultados apresentaram elevada significância estatística (P < 0,001).
Escala GOALS e transferência de habilidades
A avaliação do desempenho global por meio da escala GOALS reforçou os benefícios observados. Os participantes do grupo intervenção obtiveram escores aproximadamente três vezes superiores aos do grupo controle em todos os domínios avaliados, incluindo destreza, eficiência, manipulação de tecidos, profundidade de percepção e autonomia cirúrgica.
Segundo os autores, este representa o primeiro estudo a demonstrar validade de transferência para um simulador de endoscopia lombar utilizando essa metodologia, comprovando objetivamente que as habilidades adquiridas durante o treinamento simulado podem ser efetivamente transferidas para o ambiente operatório real.
Por que usar estudantes de Medicina no estudo?
Na discussão, os autores destacam que a escolha de estudantes de Medicina como população de estudo constituiu uma decisão metodológica estratégica. Por apresentarem níveis semelhantes de experiência cirúrgica, esse grupo oferece maior homogeneidade, reduzindo vieses relacionados às diferenças individuais de treinamento previamente adquiridas.
Em contraste, residentes e cirurgiões especialistas apresentam ampla variabilidade técnica ou domínio prévio das habilidades avaliadas, dificultando a mensuração do impacto isolado da simulação.
Os autores ressaltam ainda que estudos anteriores já haviam demonstrado validade de aparência, conteúdo e construto para simuladores semelhantes, porém inexistiam evidências consistentes acerca da validade de transferência, considerada o critério mais robusto para confirmar a eficácia educacional de um simulador cirúrgico.
Aceitação e aplicabilidade no ensino médico
Outro aspecto relevante discutido refere-se ao baixo custo e à simplicidade estrutural do simulador desenvolvido. Classificado como simulador de baixa fidelidade, o modelo foi confeccionado utilizando manequim sintético, espuma e folhas de EVA para representar estruturas anatômicas como o ligamento amarelo.
O simulador foi capaz de reproduzir adequadamente movimentos fundamentais da cirurgia endoscópica, especialmente triangulação e coordenação mão-olho. Embora apresente limitações na reprodução fiel dos tecidos biológicos, seu reduzido custo de fabricação e facilidade de utilização permitem ampla aplicabilidade em diferentes fases da formação médica, desde a graduação até os primeiros anos da residência em cirurgia da coluna.
A avaliação subjetiva revelou excelente aceitação do simulador pelos participantes. Todos atribuíram pontuação máxima à utilidade da simulação no desenvolvimento das habilidades cirúrgicas e manifestaram interesse na incorporação desse tipo de treinamento ao currículo da graduação médica.
Entretanto, a maioria afirmou que a simulação não deve substituir completamente o treinamento cirúrgico em pacientes reais, devendo atuar como ferramenta complementar no processo de ensino.
Os autores também observaram que o vídeo instrucional disponibilizado previamente apresentou contribuição limitada para o desenvolvimento das habilidades técnicas, reforçando que a aprendizagem prática baseada em simulação proporciona ganhos significativamente superiores à aprendizagem exclusivamente teórica.
Limitações do estudo
Entre as limitações do estudo, os autores destacam que o simulador não contempla etapas iniciais da cirurgia relacionadas ao uso da radioscopia, restringindo sua aplicação ao treinamento endoscópico propriamente dito.
Além disso, a amostra foi composta exclusivamente por estudantes de uma única instituição, limitando a generalização dos resultados. Também não foi avaliada a retenção das habilidades adquiridas ao longo do tempo, aspecto que deverá ser explorado em estudos futuros envolvendo diferentes populações e comparações com outros modelos de simulação.
Apesar dessas limitações, os autores consideram que a avaliação cega dos vídeos, o delineamento randomizado e a demonstração objetiva da transferência de habilidades conferem elevado rigor metodológico ao estudo.
Mensagem prática
Conclui-se que o simulador sintético de endoscopia lombar demonstrou sólida validade de transferência, promovendo melhora significativa em todos os indicadores objetivos de desempenho cirúrgico avaliados durante procedimentos reais.
O treinamento prévio reduziu o tempo operatório, aumentou a coordenação motora, diminuiu a necessidade de intervenções do supervisor e proporcionou expressiva elevação dos escores GOALS.
Associados à aceitação unânime dos participantes, esses resultados reforçam o potencial do simulador como ferramenta educacional de baixo custo para o ensino da cirurgia endoscópica da coluna, contribuindo para acelerar a curva de aprendizado e aumentar a segurança durante a formação de futuros cirurgiões.
Autoria

Hiago Bastos
Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI. Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos. Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium). Especialista em ECMO pela ELSO. Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017. Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA). Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.
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