A síndrome de Down (SD), a anomalia genética mais comum, afeta milhares de indivíduos em todo o mundo, levando a uma potencial variedade de comorbidades, dentre elas as preocupações relacionadas ao trato gastrointestinal (TGI), visto que aproximadamente 75% dos indivíduos com a condição sofrem de queixas gastrointestinais, mas as causas ainda não estão totalmente compreendidas, sendo fundamental elucidar os mecanismos subjacentes e potenciais abordagens terapêutica. Este tópico foi discutido durante o Congresso Mundial de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (WCPGHAN 2024), que aconteceu em Buenos Aires, na Argentina.
Relação com o Eixo Cérebro-Intestino:
O sistema nervoso entérico, conhecido como o “segundo cérebro”, pode estar relacionado aos problemas gastrointestinais na SD, sendo fundamental diante de um paciente sintomático investigar a interconexão entre, intestino, microbioma e o sistema imunológico.
Alterações gastrointestinais na SD com base no modelo animal estudado:
- Durante a plenária foi apresentado um estudo, feito com um modelo de camundongo DP16, tido como o melhor modelo disponível para estudar a síndrome de Down. Nesta comparação com camundongos selvagens, os camundongos DP16 apresentam trânsito intestinal mais lento e menos secreção de água no cólon, mesmo após indução de colite.
- Permeabilidade Intestinal Alterada: Eles têm trânsito intestinal mais lento e fezes mais secas, indicando que potenciais fatores neurológicos afetam as funções intestinais.
- Os camundongos DP16 têm menos neurônios no intestino e apresentam neurogênese e regeneração prejudicadas após lesão, mostrando talvez uma capacidade prejudicada de regeneração neuronal após lesões intestinais.
- A análise de sequenciamento de RNA revelou que as principais vias que regulam a reparação neuronal e a neurogênese estão significativamente deprimidas no modelo de camundongo DP16.
Todas estas informações acima sugerem e reforçam as hipóteses das alterações de motilidade gastrointestinal neste perfil de paciente.
Abordagens terapêuticas potenciais: O que esperar do futuro?
- Os resultados apresentados durante a plenária em modelo animal sugerem que direcionar as vias identificadas envolvidas na reparação neuronal e neurogênese poderia ser uma abordagem promissora para o desenvolvimento de intervenções para abordar os problemas gastrointestinais em indivíduos com SD.
- Estratégias como o uso de anticorpos específicos, bloqueadores químicos ou técnicas de edição genética (por exemplo, CRISPR, uma das técnicas mais modernas para a edição genética) poderiam ser exploradas para modular essas vias.
Mensagem prática
Do ponto de vista clínico, devemos lembrar das alterações de motilidade intestinal nos pacientes com SD e estes devem ser, no momento, manejados como os demais pacientes. Como vimos, o número reduzido de neurônios e a neurogênese e regeneração prejudicadas observadas no modelo de camundongo com SD, podem ser os potenciais responsáveis por essa manifestação. Além disso, outras condições relacionadas ao TGI, presentes nessa população devem ser conduzidas e investigadas conforme os protocolos atuais que temos, como é o caso da Doença Celíaca.
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