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Clínica Médica1 janeiro 2026

Colangite: por quanto tempo tratar a bacteremia por gram-positivos?

O estudo de Kim e colaboradores, publicado em junho/2025 no World Journal of Hepatology, abordou, de forma pioneira, uma lacuna importante na prática clínica.
Por Leandro Lima

As diretrizes de Tóquio de 2018, extremamente relevantes no universo das doenças pancreatobiliares, recomendam que, uma vez drenada com sucesso a via biliar, o tempo de antibioticoterapia pode se limitar a quatro a sete dias. 

Uma exceção proeminente, entretanto, é a indicação de, pelo menos, 14 dias de antibióticos na bacteremia por gram-positivos (Enterococos e Estreptococos), sob o pretexto de mitigar o risco de endocardite infecciosa. 

O estudo de Kim e colaboradores, publicado em junho/2025 no World Journal of Hepatology, abordou, de forma pioneira, uma lacuna importante na prática clínica:  

Qual a duração ideal da antibioticoterapia em pacientes com colangite aguda complicada por bacteremia por cocos gram-positivos após a drenagem satisfatória da via biliar?  

O desenho do estudo e os seus principais resultados 

Trata-se de uma coorte retrospectiva e unicêntrica, realizada no St. Luke’s International Hospital de Tóquio/Japão. 

  • População: Adultos internados com colangite aguda e bacteremia por gram positivos internados entre 2003 e 2023 e submetidos à drenagem satisfatória da via biliar por CPRE nos primeiros 4 dias e seguidos por um período de 3 meses; 
  • Intervenção: Antibioticoterapia encurtada (<14 dias); 
  • Comparador: Antibioticoterapia prolongada (≥14 dias); 
  • Desfecho primário: Mortalidade em 30 dias.  

Foram excluídos casos de obstrução maligna da via biliar ou de inviabilidade de drenagem com sucesso das vias biliares.  

A amostra foi modesta (N = 44), com mediana de idade de 76 anos, predominância do sexo masculino (61%) e as etiologias mais frequentes foram coledocolitíase, divertículo periampular e obstrução de stents biliares previamente inseridos. 

O desfecho primário foi a mortalidade em 30 dias, enquanto os secundários incluíram taxa de recorrência de colangite e reinfecção, bem como tempo de internação. 

Tratamento 

Encurtado 

Prolongado 

P valor 

N° de pacientes 

19 

25 

 

Tempo mediano de antibióticos (dias) 

 

16 

< 0,05 

Tempo mediano de antibióticos EV 

8 

12 

 

Tempo mediano de internação 

12 

14 

0,092 

Colangite grau III 

42,1% 

48% 

 

Taxa de realização de ecocardiograma 

36,8% 

72% 

0,042 

Mortalidade em 30 dias 

0 

0 

 

Não foi observada diferença significativa entre os grupos quanto à mortalidade (0% em ambos grupos) e taxa de recorrência (5,3% vs. 8%) ou reinfecção (0% em ambos grupos). Além disso, foi observada tendência a um menor tempo de internação (12 vs. 14 dias, P = 0,092) no grupo de terapia encurtada.  

Limitações 

As principais limitações do estudo foram o desenho retrospectivo, pequeno tamanho amostral e ausência de protocolo sistemático de ecocardiografia e hemoculturas seriadas, o que pode ter limitado a sensibilidade diagnóstica para endocardite. 

O viés de indicação para o grupo de antibioticoterapia prolongado parece ter sido motivado pela percepção de maior gravidade clínica nesse subgrupo, fato corroborado pela tendência à maior proporção, no grupo de antibioticoterapia prolongada, de: 

  • Colangite grau III (42% vs. 48%); 
  • Par de hemoculturas positivas (32% vs. 76%); 
  • Alocação em CTI (15,8% vs. 28%); 
  • Uso de vasopressores (10,5% vs. 28%); 
  • Uso de penicilinas (47,4% vs. 92%) e glicopeptídeos (10,5% vs. 44%);  
  • Exposição prévia a imunossupressores (0 vs. 4%) ou corticoides (0 vs. 8%). 

Além disso, a dicotomização em 14 dias não reflete a tendência moderna de antibioticoterapia bem mais curta na colangite (por exemplo, 4 dias) nos outros cenários.  

Conclusão e mensagens práticas 

  • Uma vez controlado o foco infeccioso biliar, a bacteremia por cocos gram-positivos, no contexto da colangite, parece não demandar cursos estendidos de antibióticos.  
  • Há espaço para uma abordagem individualizada na definição do tempo da antibioticoterapia, mas os dados desse estudo precisam ser revistos em RCTs maiores e meta-análises, especialmente pela amostra pequena, natureza unicêntrica e retrospectiva e, principalmente, pela suspeita de viés de indicação baseado na maior gravidade clínica do grupo de antibioticoterapia prolongada. 

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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