Foram publicadas as recomendações da oitava Conferência de Consenso de Baveno, realizada em março de 2026, grande referência mundial no manejo da hipertensão portal. Cinco anos após sua última versão, o consenso fortalece as noções de diagnóstico não invasivo da hipertensão portal clinicamente significativa (HPCS), atualiza conceitos fundamentais da abordagem à hemorragia varicosa e aborda ainda outras condições, também relacionadas à hipertensão portal, como a síndrome hepatorrenal, expandindo seu raio de atuação. Leia aqui os tópicos de maior relevância do tão aguardado Baveno VIII.
Diagnóstico não invasivo redefine a avaliação da HPCS
O Baveno VII já havia consagrado os testes não invasivos (NITs) como ferramenta central na estratificação da doença hepática crônica avançada compensada (cACLD). O Baveno VIII reforça esse posicionamento, incorporando critérios adicionais para o diagnóstico de HPCS (HVPG ≥ 10 mmHg), ampliando o número de pacientes que podem ser classificados — e tratados — sem cateterismo venoso hepático ou endoscopia.
O modelo ANTICIPATE estima a probabilidade de HPCS combinando valores de rigidez hepática (liver stiffness measure – LSM), contagem de plaquetas e, no caso de portadores de MASLD com IMC > 30, valor de IMC. Desenvolvido e validado em coortes de pacientes com doença hepática avançada compensada, ele converte parâmetros de rotina em uma probabilidade individual de HPCS, permitindo classificar o paciente em risco baixo, intermediário ou alto. Na prática, isso define quem se beneficia de iniciar betabloqueador não seletivo e quem pode permanecer apenas em vigilância não invasiva.
O NICER é um modelo preditivo mais recente que integra ainda o valor de rigidez esplênica (spleen stiffness measure – SSM) para predizer não apenas a presença de HPCS, mas também o risco de varizes que necessitam tratamento e de descompensação. Sua validação em coortes amplas o posiciona como ferramenta complementar ao ANTICIPATE, refinando a seleção de pacientes para profilaxia farmacológica e para endoscopia.
A elastografia esplênica (SSM) deixa de ser coadjuvante e ganha status de critério diagnóstico próprio. Como a rigidez do baço reflete diretamente a congestão esplâncnica, a SSM agrega informação hemodinâmica que a elastografia hepática isolada não abrange — especialmente em pacientes com valores limítrofes de LSM e portadores de hipertensão portal não-cirrótica. O consenso também traz orientações específicas para o uso de NITs em pacientes com carcinoma hepatocelular e um bloco pediátrico inédito.
Quando indicar TIPS na hemorragia varicosa?
Vasoativos com janela menor: A recomendação de manter Terlipressina (ou análogos) por 2 a 5 dias permanece, mas o Baveno VIII abre a possibilidade de curso abreviado — até 24 horas — após hemostasia endoscópica bem-sucedida, desde que o betabloqueador não seletivo seja iniciado em seguida. O bom controle endoscópico do sangramento passou a autorizar a interrupção precoce do vasoativo, reduzindo exposição desnecessária e eventos adversos.
Antibioticoprofilaxia individualizada: A profilaxia antibiótica na apresentação do sangramento varicoso segue recomendada, mas duração e necessidade agora são individualizadas conforme o risco infeccioso e a gravidade da cirrose: pacientes Child-Pugh A podem receber um curso mais abreviado, ou mesmo nenhuma profilaxia antibiótica. As cefalosporinas de terceira geração continuam como primeira opção, considerando-se os padrões locais de resistência e as políticas antimicrobianas de cada serviço.
TIPS preemptivo com janela ampliada: A indicação clássica se mantém (Child-Pugh C 10–13; Child-Pugh B > 7 com sangramento ativo à endoscopia inicial; ou HVPG ≥ 20 mmHg, idealmente dentro de 72 horas). A grande novidade: se a janela de 72 horas foi perdida, o TIPS tardio ainda pode trazer benefício — em até 1 semana no Child-Pugh B > 7 com sangramento ativo e em até 2 semanas no Child-Pugh C 10–13. Além disso, ACLF, encefalopatia hepática, hiperbilirrubinemia, MELD elevado e hepatite alcoólica grave deixam de ser considerados contraindicações absolutas ao TIPS preemptivo. No sangramento refratário, o stent metálico autoexpansível coberto (cSEMS) é preferido ao balão de tamponamento como ponte para TIPS ou transplante, quando disponível.
Outras novidades na hemorragia varicosa: Dose única de eritromicina IV (250 mg, 30–90 minutos antes da endoscopia) para melhorar o clearance gástrico e a visualização, reduzindo a necessidade transfusional. Imagem abdominal (TC ou RM) recomendada em todos os pacientes com sangramento varicoso para excluir trombose esplâncnica e CHC e mapear colaterais portossistêmicas. Nas varizes gástricas GOV2/IGV1, manejo bimodal (hemostasia imediata + tratamento definitivo), com papel crescente da abordagem guiada por ecoendoscopia (coil + cianoacrilato) e do TIPS ± embolização como tratamento definitivo preferido. Na ectasia vascular antral (GAVE), a ligadura elástica passa a ser preferida sobre a coagulação com plasma de argônio.
Priorize infusão contínua na síndrome hepatorrenal
Na HRS-AKI, o Baveno VIII traz uma recomendação oficial que altera a prática: a Terlipressina deve ser, preferencialmente, administrada em infusão contínua por via intravenosa (dose inicial de 2–3 mg/24 horas), não em bolus, para reduzir a incidência de eventos adversos. A Norepinefrina é formalmente reconhecida como alternativa quando a Terlipressina não estiver disponível, for contraindicada ou não tolerada. A Albumina permanece como parte fundamental do tratamento, juntamente à droga vasoativa.
Otimização do TIPS e alternativas
O consenso refina o uso do TIPS na ascite recorrente ou refratária: o stent pode ser dilatado até o menor diâmetro que obtenha resposta adequada, com dilatação escalonada em caso de ausência de melhora, reduzindo assim o risco de overshunting (encefalopatia e insuficiência cardíaca). O TIPS passa a ser considerado também no hidrotórax hepático refratário ao tratamento clínico e, de forma individualizada, em idosos (≥ 70 anos). Para quem não é candidato a TIPS, infusões periódicas de albumina de longo prazo (melhora do controle da ascite e redução de complicações) e os dispositivos de drenagem domiciliar (cateter peritoneal tunelizado ou bomba de ascite de baixo fluxo) servem como alternativas à paracentese de repetição em cenários individualizados.
Encefalopatia hepática: novas (velhas) ferramentas
Na encefalopatia recorrente ou persistente apesar da terapia farmacológica otimizada com os agentes tradicionais, a embolização de shunts portossistêmicos de grande calibre deve ser considerada — especialmente quando a função hepática está preservada —, em conjunto com a discussão para inclusão em lista transplante. A L-ornitina-L-aspartato (LOLA), utilizada na prática há anos, surge como opção terapêutica formal. Antes do TIPS eletivo, história prévia de encefalopatia não é contraindicação absoluta, mas exige avaliação cuidadosa, e a Rifaximina deve ser considerada como profilaxia nesse cenário. Após o TIPS, encefalopatia recorrente pode ser manejada com embolização de shunts espontâneos ou redução/oclusão do TIPS.
Recompensação da cirrose
O conceito de recompensação se consolida: remoção, supressão ou cura da etiologia primária; resolução de ascite, encefalopatia e sangramento por mais de 6 meses; e melhora sustentada da função hepática (definida como Child-Pugh A5-6). O ponto crítico: a persistência de HPCS não configura recompensação. Nesse caso, os betabloqueadores não seletivos devem ser mantidos. A recompensação também tem implicações práticas na suspensão de profilaxias, como a de PBE.
Child-Pugh orienta decisões na trombose de veia porta
O rastreio de trombose de veia porta (PVT) é recomendado em pacientes com cirrose, simultaneamente à vigilância radiológica de CHC. A ocorrência de PVT na presença de CHC não é prova de invasão vascular — exige imagem com contraste e critérios padronizados (A-VENA, LI-RADS). A anticoagulação é recomendada em candidatos a transplante com qualquer PVT e deve ser considerada em trombose recente parcial ou completa do tronco da veia porta, PVT sintomática e PVT não tumoral com CHC. Os DOACs são seguros em Child-Pugh A, podem ser usados com cautela em Child-Pugh B e não são recomendados em Child-Pugh C fora de protocolos de pesquisa. Novidades: TIPS pode ser considerado como primeira linha na trombose do tronco da veia porta com complicações de hipertensão portal e contraindicação de anticoagulação; anticoagulação rotineira após TIPS não é recomendada.
Fragilidade e sarcopenia
O Baveno VIII eleva fragilidade e sarcopenia a preditores independentes de desfechos clínicos: intervenções direcionadas (nutricionais e de atividade física) são encorajadas além do aconselhamento padrão. No contexto do TIPS, sarcopenia e fragilidade podem melhorar após o procedimento, mas também se associam a piores desfechos — eles não devem, isoladamente, indicar ou contraindicar o TIPS, mas integrar a avaliação pré-procedimento.
Como o Baveno VIII modifica a prática clínica
- HPCS pode ser diagnosticada por modelos preditores (ANTICIPATE, NICER) ou elastografia esplênica, ampliando o acesso à profilaxia com betabloqueador.
- Na hemorragia digestiva varicosa, o agente vasoativo pode ser suspenso em 24 horas se a hemostasia endoscópica foi adequada e o NSBB iniciado em seguida. A antibioticoprofilaxia pode ser abreviada ou mesmo omitida no paciente Child-Pugh A. O TIPS tardio (1–2 semanas) torna-se uma opção válida.
- Na HRS-AKI, terlipressina em infusão contínua intravenosa é a forma preferencial de administração.
- Na ascite refratária, preferência por TIPS de pequeno diâmetro. Albumina de longo prazo e dispositivos de drenagem peritoneal ampliam o arsenal terapêutico.
- Na PVT, rastreio junto ao CHC, DOACs em Child-Pugh A e TIPS como primeira linha em casos selecionados.
Autoria

Filipe Justus
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.
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