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Gastroenterologia17 abril 2026

ACP 2026: colite microscópica — pense em doença celíaca

A relação entre colite microscópica e doença celíaca é bidirecional e deve ser lembrada na diarreia crônica.
Por Leandro Lima

Na sessão de Gastroenterologia e Hepatologia do ACP Internal Medicine Meeting 2026, a Dra. Amy Oxentenko, da Mayo Clinic, destacou uma pérola clínica importante: ao abordar colite microscópica (CM), vale sempre considerar também a possibilidade de doença celíaca (DCe).

Por que isso importa

A colite microscópica, tanto na forma linfocítica quanto colagenosa, é causa relevante de diarreia crônica aquosa e está presente em até 10% dos indivíduos submetidos à colonoscopia com biópsias seriadas, muitas vezes com mucosa endoscopicamente normal. Por isso, a chave do diagnóstico está justamente nas biópsias, mesmo quando o exame parece inalterado.

A condição é mais frequente em mulheres, idosos e pessoas com doenças autoimunes. A possível associação com medicamentos segue controversa. Há alguma suspeita sobre o papel dos ISRS, mas com grande potencial de viés. Assim, a descontinuação rotineira de drogas como AINE, IBP, estatinas, IECA/BRA e ISRS não é recomendada quando essas medicações estiverem bem indicadas.

Quando pensar em doença celíaca

A principal mensagem prática da sessão foi a relação bidirecional entre CM e DCe. A doença celíaca aumenta o risco de colite microscópica em 50 a 70 vezes, enquanto cerca de 9% dos pacientes com CM apresentam DCe concomitante.

Na prática, a doença celíaca deve ser lembrada principalmente diante de ausência de resposta à budesonida oral, síndrome consumptiva importante, deficiência de vitaminas e minerais e sinais de má absorção. Nesses cenários, também entram no diagnóstico diferencial outras causas de diarreia, como a má absorção de ácidos biliares.

Como fazer a investigação

A triagem sorológica para doença celíaca deve incluir a dosagem de IgA total, para excluir deficiência seletiva de IgA, e de antitransglutaminase tecidual IgA. Quando houver suspeita, a confirmação diagnóstica deve ser feita com endoscopia digestiva alta e biópsias do bulbo e da segunda porção duodenal.

Esse ponto é importante porque, em pacientes com colite microscópica, a persistência da diarreia apesar do tratamento pode ser interpretada de forma equivocada como refratariedade isolada da CM, quando na verdade existe uma segunda condição associada contribuindo para o quadro clínico.

O que muda na prática

A principal implicação prática é simples: doença celíaca deve sempre ser lembrada em pacientes com colite microscópica, e o inverso também é verdadeiro. Em pacientes com diarreia crônica aquosa e diagnóstico de CM, especialmente quando houver sinais de alarme ou resposta insatisfatória ao tratamento, ampliar a investigação pode evitar atraso diagnóstico.

Limitações e próximos passos

A sessão também destacou uma limitação importante: o diagnóstico histopatológico da doença celíaca pode ter sensibilidade reduzida em pacientes com CM, seja pelo uso prévio de corticosteroides como prednisona e budesonida, seja pela exclusão espontânea do glúten da dieta. Nesses casos, pode ser necessário orientar o paciente a retomar a ingestão habitual de glúten antes de repetir os testes.

Em relação aos próximos passos, a tipagem HLA-DQ2/DQ8 não deve ser usada como triagem de rotina em todos os pacientes com CM, mas pode ser útil em situações selecionadas, especialmente quando já houve retirada prévia do glúten e se deseja excluir doença celíaca sem desafio alimentar.

Autoria

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Leandro Lima

Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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