A polipose adenomatosa hereditária contempla condições incuráveis que elevam substancialmente o risco oncológico, causadas por variantes germinativas patogênicas ou provavelmente patogênicas na via de sinalização Wnt-β-catenina. Cerca de 10% do montante de câncer colorretal são hereditários, e as variantes germinativas são encontradas em 1-2% dos casos.
As diretrizes do American College of Gastroenterology destacam as duas síndromes de polipose hereditárias mais comuns: polipose adenomatosa familiar (PAF), relacionada ao gene APC, e a polipose associada ao MUTYH (PAM), com prevalência populacional estimada em 1:10.000 e 1:40.000, respectivamente.

Quando a avaliação genética deve ser considerada?
Os gatilhos diagnósticos incluem:
- ≥ 10 adenomas colorretais acumulados ao longo da vida, sobretudo com ocorrência precoce;
- Histórico pessoal ou familiar de câncer colorretal, com heredograma contemplando ao menos três gerações;
- Manifestações extraintestinais específicas.
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O método GRADE orienta as recomendações
O grupo elaborador formulou questões PICO e realizou busca sistemática pelo método GRADE nas bases PubMed, EMBASE e Ovid, em publicações até janeiro de 2025.
Testagem genética
O painel multigênico germinativo teve recomendação forte para indivíduos com 20 ou mais adenomas colorretais acumulados, com baixa certeza da evidência; e sugerido diante de 10-19 adenomas acumulados, uma recomendação condicional.
Na presença de tumor desmoide, carcinoma cribriforme morular da tireoide, hipertrofia congênita bilateral ou multifocal do epitélio pigmentar da retina ou hepatoblastoma, recomenda-se fortemente o teste germinativo de APC, com baixa certeza da evidência.
O painel multigênico deve incluir, no mínimo, APC, AXIN2, BMPR1A, EPCAM, GREM1, MLH1, MSH2, MSH3, MSH6, MUTYH, NTHL1, POLD1, POLE, PMS2, PTEN, SMAD4 e STK11. Em famílias com variantes já estabelecidas, a testagem pode ser focada nesta informação.
A maior parte do manejo combina vigilância e intervenção
Intervenção cirúrgica
A cirurgia é estritamente necessária nas seguintes condições:
- Câncer colorretal invasivo confirmado;
- Carga intensa de pólipos, com mais de 1.000 adenomas colônicos;
- Adenomas avançados irressecáveis por via endoscópica (pólipos ≥ 10 mm ou com displasia de alto grau);
- Incapacidade de vigilância endoscópica;
- Manifestações clínicas significativas e refratárias, como anemia ferropriva grave por sangramento colônico recorrente, dor abdominal, diarreia ou obstrução intestinal.
Indicações de vigilância endoscópica e cirurgia colorretal na polipose adenomatosa
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Característica | Manejo Endoscópico | Indicações Relativas de Colectomia | Indicações Absolutas de Colectomia |
| Número de adenomas | < 100 | 100–1.000 | > 1.000 |
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Carga de pólipos | • Maioria dos adenomas < 10 mm, com nenhum ou poucos ≥ 10 mm • Todas as lesões ≥ 10 mm ressecadas | • Poucos adenomas com DAG e múltiplos adenomas ≥ 10 mm • Todas as lesões ≥ 10 mm ou com DAG ressecadas • Aumento clinicamente significativo da carga de pólipos entre exames (por exemplo, aumento ≥ 2 vezes no número de pólipos entre 2 exames e desenvolvimento de ≥ 1 adenoma ≥ 10 mm ou com DAG) | • Câncer invasivo • Múltiplos adenomas com DAG • Adenomas ≥10 mm ou com DAG não ressecáveis endoscopicamente • Impossibilidade de realizar vigilância endoscópica do cólon para assegurar a ausência de câncer, independentemente do número de adenomas |
|
Sintomas |
Ausentes | Ausentes ou leves: anemia ferropriva por sangramento colônico, desconforto abdominal e diarreia | Sinais ou sintomas clinicamente significativos: anemia ferropriva refratária por sangramento colônico, diarreia, dor abdominal e obstrução |
| Intervalo entre colonoscopias | 1–3 anos |
A cada 6–12 meses |
Cirurgia |
DAG: displasia de alto grau.
Na polipose adenomatosa familiar (PAF), a presença de mais de 20 adenomas retais favorece a proctocolectomia total com anastomose ileoanal e reservatório, em vez da colectomia total com anastomose ileorretal, pela possibilidade de reduzir a necessidade de nova cirurgia e melhorar os desfechos relacionados ao câncer retal. Quando há até 20 adenomas retais, sugere-se a colectomia total com anastomose ileorretal, visando melhor qualidade de vida após a cirurgia. Ambas as recomendações são condicionais e baseadas em evidências de certeza muito baixa.
Quimioprevenção
A quimioprevenção não deve substituir a colectomia quando houver indicação cirúrgica, recomendação forte com certeza moderada. Como adjuvante à vigilância endoscópica, uso de Celecoxibe 400 mg 2x/dia pode ser considerado, individualmente, para reduzir a carga de pólipos no cólon, reto ou reservatório ileo anal, com recomendação condicional e baixa certeza; entretanto, o impacto sobre o risco evolutivo para cirurgia ou câncer permanece incerto.
Vigilância endoscópica colorretal
O seguimento endoscópico na polipose adenomatosa hereditária é pautado na carga de adenomas, expressão fenotípica e genótipo.
Em indivíduos assintomáticas com variante patogênica em APC ou risco de PAF clássica, a colonoscopia basal deve se iniciar entre 10 e 15 anos, seguida de exames a cada 1 a 3 anos; para PAF atenuada ou PAM, a colonoscopia basal deve se iniciar entre 18 e 20 anos.
Após anastomose ileoanal com reservatório ou anastomose ileorretal, sugere-se endoscopia baixa anual, com intervalos menores conforme tamanho, histologia e número de adenomas. A ileoscopia é habitualmente realizada a cada 3 anos, em conjunto com inspeção do estoma em pacientes com ileostomia.
Na polipose colorretal de etiologia desconhecida, definida por ≥ 10 adenomas cumulativos e painel multigênico negativo, pessoas com ≥ 20 adenomas devem fazer colonoscopia a cada 1 a 3 anos, e colectomia é indicada diante de câncer colorretal ou polipose não manejável por endoscopia.colonoscopia a cada 1 a 3 anos, e colectomia é indicada diante de câncer colorretal ou polipose não manejável por endoscopia.
Vigilância endoscópica duodenal
Para PAF, PAF atenuada e PAM, sugere-se vigilância endoscópica alta com visualização da papila duodenal, recomendação condicional com baixa certeza. A endoscopia digestiva basal é recomendada entre 20 e 25 anos na PAF e PAF atenuada; e entre 30 e 35 anos na PAM.
A periodicidade da vigilância endoscópica duodenal é pautada na classificação de Spigelman, que estratifica o risco evolutivo para o adenocarcinoma do duodeno.
Classificação de Spigelman
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Variáveis | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
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Número de pólipos | 1–4 | 5–20 | > 20 |
|
Tamanho do pólipo (mm) | 1–4 | 5–10 |
> 10 |
|
Histologia | Tubular | Tubulovilosa |
Vilosa |
| Displasia | Leve | Moderada |
Grave |
|
Escore de Spigelman | Estágio | Risco de Adenocarcinoma |
|
0 | 0 | – |
| 1–4 | I |
– |
|
5–6 | II | 2,3% |
| 7–8 | III |
2,4% |
| 9–12 | IV |
36% |
Vigilância endoscópica duodenal
|
Estágios de Spigelman |
Intervalos |
|
0 | 3-5 anos |
| I |
3 anos |
|
II | 2-3 anos |
|
III | 6-12 meses |
| IV |
3-6 meses |
Adenomas duodenais > 10 mm ou qualquer displasia de alto grau justificam sugestão de intervenção terapêutica, com decisão individualizada entre ressecção endoscópica e cirúrgica. Em PAF ou polipose adenomatosa com adenoma ampular e sem indicação de duodenectomia, sugere-se ampulectomia endoscópica se a lesão tiver ≥ 10 mm, displasia de alto grau ou sintomas pancreatobiliares, desde que não haja extensão intraductal > 10 mm; a recomendação é condicional, com certeza muito baixa.
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Vigilância extra-gastrointestinal
O gastroenterologista deve estar atento para o encaminhamento para vigilância de neoplasias tireoidianas (ultrassonografia basal recomendada aos 18 anos, com seguimento a cada 5 anos), ginecológicas (endométrio, ovário e mama), cerebrais (astrocitomas e glioblastomas), pancreáticas e cutâneas.
A aplicação prática varia conforme o fenótipo
Para o médico brasileiro, a principal mensagem dessas diretrizes é reconhecer os gatilhos para a solicitação de testagem genética. O teste genético não é contemplado no SUS, e os custos implicados em laboratórios particulares especializados são moderados a altos. Em alguns poucos centros de referência, a bateria pode ser dispensada gratuitamente ao paciente. A carga de pólipos deve ser bem documentada, com organização da vigilância endoscópica conforme o fenótipo e, em relação ao duodeno, com base no estágio de Spigelman.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Leandro Lima
Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.
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