A lipoproteína(a), ou Lp(a), tem ganhado destaque como marcador de risco cardiovascular. Um artigo de revisão publicado no periódico The Lancet, em 2024, discutiu aspectos relacionados à sua estrutura, interpretação clínica e associação com doenças cardiovasculares.

O que é a lipoproteína(a)?
A lipoproteína(a) [Lp(a)] é uma partícula plasmática composta por colesterol, triglicerídeos, fosfolipídios e apolipoproteína B, com estrutura semelhante à das lipoproteínas de baixa densidade (LDL).
O principal diferencial da Lp(a) é a presença de uma proteína adicional, chamada apolipoproteína(a), ligada à apolipoproteína B por uma ponte dissulfeto.
A apolipoproteína(a) apresenta características estruturais específicas, como múltiplas repetições de uma unidade denominada kringle IV. Essa estrutura influencia diretamente os níveis plasmáticos de Lp(a) e contribui para suas propriedades pró-aterogênicas e pró-trombóticas.
Além disso, a apolipoproteína(a) apresenta homologia com o plasminogênio, o que sugere um possível papel nos mecanismos de coagulação sanguínea e formação de trombos.
Qual é a relação entre lipoproteína(a) e risco cardiovascular?
A lipoproteína(a) é considerada um fator de risco para diferentes doenças cardiovasculares. A Lp(a) pode se acumular em áreas de lesão arterial e participar da formação de placas ateroscleróticas e trombos, contribuindo para a progressão da doença cardiovascular.
Níveis elevados de Lp(a) estão associados a maior risco de aterosclerose e, consequentemente, a eventos e condições como:
- infarto do miocárdio;
- acidente vascular cerebral isquêmico;
- estenose valvar aórtica.
Quais níveis de lipoproteína(a) indicam maior risco?
O risco cardiovascular associado a concentrações mais elevadas de lipoproteína(a) aumenta de forma gradual, sem um limite formal único. Para a prática clínica, porém, alguns valores podem orientar a interpretação.
Valores acima de 30 mg/dL e 50 mg/dL
Pessoas com níveis plasmáticos de Lp(a) acima de 30 mg/dL apresentam maior risco de doença cardiovascular em comparação com indivíduos com concentrações mais baixas. Entre 30 mg/dL e 50 mg/dL, esse aumento pode ser modesto.
A primeira declaração de consenso da Sociedade Europeia de Aterosclerose considerou concentrações acima de 50 mg/dL clinicamente importantes.
Quando solicitar a dosagem de lipoproteína(a)?
Segundo os autores da revisão, a dosagem da Lp(a) deve ser realizada ao menos uma vez na vida, especialmente em indivíduos com maior risco cardiovascular.
Como seus níveis são predominantemente determinados por fatores genéticos, a lipoproteína(a) apresenta pouca variação ao longo da vida, exceto em situações de inflamação aguda.
Como interpretar os resultados da Lp(a)?
Para a interpretação dos resultados, podem ser considerados os seguintes valores:
- Acima de 30 mg/dL: associado a maior risco cardiovascular;
- Acima de 50 mg/dL: indica risco cardiovascular significativamente elevado;
- Acima de 90 mg/dL: sugere risco ainda maior;
- Acima de 130 mg/dL: pode representar risco equivalente ao observado em indivíduos com hipercolesterolemia familiar.
Quais são as opções para reduzir a lipoproteína(a)?
Atualmente, não há medicamentos aprovados especificamente para reduzir a lipoproteína(a). No entanto, diferentes terapias estão em desenvolvimento.
Entre as estratégias em estudo estão as tecnologias de silenciamento gênico, como:
- pelacarsen;
- olpasiran;
- lepodisiran
Essas terapias podem reduzir os níveis de Lp(a) em até 98%.
Os inibidores de PCSK9, amplamente utilizados para reduzir o LDL, também apresentam efeito moderado sobre a lipoproteína(a), com redução de aproximadamente 25%.
A aférese, técnica invasiva que remove diretamente lipídios do sangue, pode reduzir a Lp(a) em até 35%. Esse procedimento é utilizado em pacientes com níveis muito elevados e alto risco cardiovascular.
A niacina também pode reduzir a Lp(a) em cerca de 25%, mas seu uso é limitado pelos efeitos adversos e pela ausência de benefício comprovado sobre eventos cardiovasculares.
Conclusão
A lipoproteína(a) é um marcador relevante de risco cardiovascular, com níveis predominantemente determinados por fatores genéticos e pouca variação ao longo da vida.
Sua dosagem pode contribuir para a avaliação do risco cardiovascular, especialmente em indivíduos de maior risco. Valores elevados estão associados a aterosclerose, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico e estenose valvar aórtica.
Embora ainda não existam medicamentos aprovados especificamente para reduzir a Lp(a), diferentes estratégias terapêuticas estão em desenvolvimento.
*Este conteúdo foi atualizado em: 20/07/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.
Referência: Nordestgaard, Børge G et al. Lipoprotein(a) and cardiovascular disease The Lancet, Volume 404, Issue 10459, 1255 – 1264
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
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