O diabetes tipo 2 é uma das doenças metabólicas de maior prevalência no mundo, sendo responsável por um número crescente de complicações cardiovasculares e renais. Apesar do avanço nas terapias farmacológicas, o controle glicêmico ainda permanece um desafio para muitos pacientes, particularmente àqueles com hiperglicemia persistente e resistência insulínica acentuada.
Nos últimos anos, o interesse em abordagens dietéticas mais estruturadas como estratégia terapêutica para o manejo do diabetes vem crescendo. Entre essas abordagens, as dietas baseadas em plantas integrais (Whole-Food, Plant-Based – WFPB) têm sido associadas a melhores desfechos metabólicos, maior sensibilidade à insulina e menor necessidade de medicamentos. A inclusão predominante de vegetais, grãos integrais, frutas e leguminosas favorece um perfil glicêmico mais estável, enquanto a baixa ingestão de gorduras saturadas e produtos ultraprocessados reduz a lipotoxicidade e inflamação sistêmica, fatores críticos na fisiopatologia do diabetes tipo 2 (DM2).
Apesar das evidências epidemiológicas favoráveis às dietas WFPB, poucos ensaios clínicos randomizados avaliaram seus efeitos em pacientes com DM2 descompensado. Para preencher essa lacuna da literatura, foi elaborado um ensaio clínico randomizado acerca do tema, investigando os impactos de uma intervenção intensiva com dieta plant-based integral associada a um programa estruturado de exercício físico moderado no controle glicêmico, na necessidade de medicamentos e na melhora de outros marcadores metabólicos. O estudo foi publicado recentemente na revista Diabetologia, periódico da EASD (European Association for the Study of Diabetes).
O estudo
O estudo foi um ensaio clínico randomizado (RCT), controlado e paralelo, com o objetivo de avaliar os efeitos da intervenção dietética associada ao exercício físico em comparação com o tratamento médico convencional. O estudo foi realizado na República das Ilhas Marshall, uma região onde a prevalência de diabetes tipo 2 está entre as mais altas do mundo, tornando-se um cenário ideal para avaliar a eficácia de estratégias intensivas de controle da doença.
Foram recrutados 169 participantes adultos, com idades entre 18 e 75 anos, todos com diagnóstico prévio de diabetes tipo 2 e níveis elevados de hemoglobina glicada (HbA1c ≥ 8,0%). Critérios de exclusão foram estabelecidos para evitar vieses e garantir a segurança dos participantes, incluindo indivíduos com doença cardiovascular instável, complicações diabéticas graves ou mudanças recentes no tratamento farmacológico.
Os pacientes foram randomizados em dois grupos: Grupo Intervenção (PB+Ex – Dieta “Plant-Based” + Exercícios) – submetidos a uma dieta plant-based integral estruturada, combinada com um regime de exercício físico moderado e acompanhamento intensivo – vs grupo controle, tratados com o manejo convencional do diabetes, incluindo uso de medicamentos e recomendações nutricionais padrão.
O grupo intervenção recebeu 12 semanas de suporte intensivo, incluindo refeições preparadas, sessões presenciais de educação nutricional, estratégias comportamentais para adesão à dieta e supervisão do programa de exercícios físicos. A dieta consistiu na ênfase em alto consumo de fibras (>35 g/dia), carboidratos complexos e exclusão de produtos ultraprocessados e de origem animal, mantendo um padrão alimentar predominantemente rico em vegetais, frutas, grãos integrais e leguminosas. Já o programa de exercícios incluiu 60 minutos diários de atividade aeróbica e resistência muscular durante as primeiras semanas, seguido por um regime progressivamente ajustado conforme a adaptação dos participantes. O grupo controle não recebeu suporte adicional além das consultas médicas regulares e do ajuste terapêutico conforme necessidade clínica.
A análise dos resultados foi conduzida ao longo de 24 semanas, com avaliações em múltiplos pontos temporais (0, 2, 6, 12 e 24 semanas). Foram medidos diversos parâmetros clínicos e laboratoriais, incluindo Hemoglobina glicada (HbA1c), glicose de jejum, insulina e HOMA-IR (indicador de resistência insulínica); Uso de medicamentos hipoglicemiantes e anti-hipertensivos, avaliando a redução ou suspensão das terapias; Perfil lipídico e inflamação sistêmica, com dosagem de colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos e proteína C-reativa de alta sensibilidade (hsCRP); Composição corporal, incluindo peso, índice de massa corporal (IMC) e circunferência abdominal.
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Resultados
A intervenção dietética “plant-based”, associada ao exercício físico, foi significativamente mais eficaz do que o tratamento convencional na melhora dos marcadores glicêmicos, na redução do uso de medicamentos e no impacto metabólico geral. Por fins didáticos, separamos os desfechos encontrados em tópicos:
Melhora no controle glicêmico
Houve uma redução expressiva da HbA1c no grupo intervenção, com diminuição média de -2,0% após 12 semanas, comparado a -0,7% no grupo controle (p<0.0001). Após 6 meses, a diferença entre os grupos ainda foi significativa, com redução de -1,4% na HbA1c do grupo intervenção versus -0,7% no grupo controle (p=0.01).
Redução do uso de medicamentos
63% dos participantes do grupo intervenção conseguiram reduzir ou suspender seus hipoglicemiantes, contra 24% no grupo controle (p=0.006). 23% dos pacientes do grupo PB+Ex com HbA1c inicial <9,0% alcançaram remissão do diabetes, sem necessidade de medicação. Além da melhora glicêmica, 67% dos indivíduos no grupo intervenção reduziram o uso de anti-hipertensivos e estatinas.
Impacto na composição corporal e inflamação
O grupo intervenção (PB+Ex) apresentou redução média de -2,7 kg no peso corporal (p<0.0001). Houve também uma redução expressiva na proteína C-reativa de alta sensibilidade (hsCRP) de -11 nmol/L (p=0.005), sugerindo melhora da inflamação sistêmica associada ao diabetes tipo 2.
Parâmetros Cardiovasculares
Nos primeiros três meses, observou-se redução de triglicerídeos (- 33 mg/dL, p=0.003) e pressão arterial sistólica (- 8 mmHg, p=0.02). Contudo, esses benefícios não foram sustentados ao longo das 24 semanas, indicando a necessidade de aderência prolongada para manutenção dos efeitos cardiovasculares positivos.
Conclusão e mensagem prática
Os resultados deste ensaio clínico demonstram que uma intervenção intensiva baseada em dieta plant-based integral, associada a exercícios físicos, pode melhorar significativamente o controle glicêmico e reduzir a necessidade de medicações no DM2, promovendo até mesmo remissão do diabetes em uma parcela dos pacientes e reduzindo a necessidade de tratamentos farmacológicos.
Entretanto, a manutenção desses benefícios requer suporte contínuo, destacando a importância de intervenções estruturadas a longo prazo. O desafio clínico reside na adesão sustentada a essas mudanças dietéticas e comportamentais, um aspecto essencial para a efetividade dessa abordagem no controle do diabetes tipo 2.
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