O liquen escleroso (LE) é uma doença inflamatória crônica cutânea que envolve a pele genital e extragenital, caracterizado por uma natureza progressiva e recalcitrante. A fisiopatologia molecular permanece incompletamente elucidada, portanto, a revisão que ora se aborda teve como objetivo sintetizar as evidências disponíveis sobre os principais mecanismos moleculares envolvidos na etiopatogenia da doença, com ênfase na desregulação imunológica, alterações epigenéticas e remodelamento tecidual.
Os autores propõem um modelo integrado em que processos inflamatórios, mecanismos regulatórios e alterações fibróticas atuam de forma interdependente para a iniciação e progressão da doença.

Métodos utilizados e principais achados
A revisão foi conduzida conforme as recomendações PRISMA, utilizando as bases PubMed, Scopus e Web of Science para identificar estudos originais publicados entre 2016 e 2025. 18 estudos originais foram incluídos, que evidenciaram ativação de respostas imunes mediadas por linfócitos T, especialmente as vias Th1 e Th17, aumento da sinalização inflamatória NF-kB, alterações epigenéticas e remodelamento fibrótico mediado por fibroblastos como principais mecanismos envolvidos na patogênese do LE.
Os autores evidenciaram que a desregulação imunológica representa o mecanismo mais consistente identificado na literatura. Os estudos mostraram aumento da expressão de IL-1A, IL-6, IFN- γ, IL-17 e de genes relacionados à ativação de linfócitos T e ativação da via NF-kB. Paralelamente, alterações epigenéticas parecem contribuir para manutenção da resposta inflamatória, proliferação de fibroblastos e persistência da doença.
Outro aspecto foi o papel dos fibroblastos no remodelamento tecidual e na fibrose. Diversos estudos demonstraram alterações como aumento da sinalização TGF- β /SMAD, maior produção de colágeno, alterações da proteína ECM1 e intensificação da comunicação entre fibroblastos e células imunes, sugerindo que a esclerose resulta de um processo ativo de remodelamento estromal, e não apenas de cicatrização passiva.
Alterações em vias relacionadas ao metabolismo lipídico, stress oxidativo, proteínas do complemento e resposta celular ao stress também foram identificadas, embora esses achados tenham sido considerados exploratórios.
O que podemos levar para a prática?
Os autores concluem que o LE resulta de uma interação complexa entre a ativação imune, desregulação epigenética e remodelamento tecidual mediado por fibroblastos. A evidência mais consistente sustenta o envolvimento da inflamação mediada por linfócitos T, ativação da via NF-kB, alterações nos perfis de microRNAs e na metilação do DNA, além da participação da via TGF- β na fibrose progressiva presente na doença.
Apesar da identificação de diversos alvos moleculares e potenciais biomarcadores, a aplicabilidade clínica ainda é limitada, sendo necessários estudos maiores, com coortes bem caracterizadas para validar os mecanismos propostos e apoiar o desenvolvimento de estratégias diagnósticas e terapêuticas.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Editora médica da Afya. Formada pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além da atuação na Afya, também é preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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