O carcinoma espinocelular cutâneo (CEC) está entre as neoplasias mais comuns, com mais de 2,2 milhões de casos globais. Embora o papel da radiação ultravioleta (RUV) na carcinogênese do CEC seja bem estabelecido, o papel específico das queimaduras solares gera controvérsias na literatura.
Essa associação entre a RUV e o CEC já foi avaliada por estudos em modelos animais, estudos com populações migrantes, estudos ecológicos que correlacionam a incidência com a latitude e estudos caso-controle. Alguns estudos sugerem que apenas a exposição crônica à RUV esteja associada ao aumento do risco de CEC, sem relação com o histórico de queimaduras solares. Em contrapartida, outros estudos contradizem esse achado.
Estudo
Diante da crescente incidência, morbidade e custos em saúde associados a essa neoplasia, compreender a associação entre as queimaduras solares e o risco do desfecho do carcinoma espinocelular torna-se essencial. Desse modo, Weber et al. publicaram em 2025, no JAMA Dermatology, uma revisão sistemática com meta-análise que buscou esclarecer quantitativamente essa associação.
Metodologia
O estudo incluiu 17 investigações observacionais, com aproximadamente 320 mil participantes da população geral. O desfecho analisado foi o CEC cutâneo, confirmado histologicamente. A exposição foi definida como história de queimaduras solares em diferentes períodos da vida, com distinção entre queimaduras indefinidas e aquelas descritas como dolorosas, bolhosas ou graves. As análises foram estratificadas por frequência de queimaduras e por faixa etária de exposição (infância e ao longo da vida).
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Resultados e discussão: queimaduras solares e o carcinoma espinocelular
Os resultados mostraram que não houve associação consistente entre CEC e queimaduras solares não especificadas ao longo da vida, sugerindo que exposições solares agudas leves ou mal caraterizadas não explicam isoladamente o risco tumoral.
Em contraste, as queimaduras dolorosas, bolhosas ou graves apresentaram associação mais clara e dose-dependente com o risco de CEC. Frequências médias e altas dessas queimaduras ao longo da vida aumentaram significativamente a chance de desenvolvimento do tumor (OR 1,51 e 1,69, respectivamente). Além disso, o mesmo relato de ao menos uma queimadura solar grave já demonstrou associação com maior risco de CEC.
Outro achado relevante foi o impacto da exposição precoce: indivíduos com alta frequência de queimaduras solares graves na infância apresentaram um risco três vezes maior de desenvolver CEC na vida adulta. Esse dado reforça que a pele da população pediátrica é mais vulnerável ao dano UV, com possíveis efeitos carcinogênicos de longo prazo.
Embora a certeza da evidência tenha sido classificada como baixa ou muito baixa, devido a heterogeneidade dos estudos, viés de memória e ajustes incompletos para fatores fenotípicos e geográficos, os resultados corroboram as evidências prévias para melanoma e carcinoma basocelular, ampliando o papel da exposição solar aguda intensa também na patogênese do CEC.
Os autores concluem que as queimaduras solares graves se comportam como eventos biologicamente relevantes na carcinogênese e reforçam a necessidade de estratégias de fotoproteção, principalmente na infância.
Mensagens práticas
- As queimaduras solares graves importam: episódios dolorosos, bolhosos e intensos estão associadas a maior risco de CEC;
- Existe relação dose-resposta: quanto maior a frequência das queimaduras solares graves ao longo da vida, maior o risco;
- A infância é um período que requer atenção especial: a pele é mais vulnerável e as queimaduras graves nessa faixa etária elevam o risco de CEC na vida adulta;
- Nem toda queimadura é igual: as queimaduras solares mais leves ou não especificadas não demonstraram associação consistente com CEC nesse estudo;
- Prevenção: a fotoproteção rigorosa deve ser instituída desde a infância, como estratégia principal na prevenção do câncer de pele.
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Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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