As diretrizes de Tóquio de 2018, extremamente relevantes no universo das doenças pancreatobiliares, recomendam que, uma vez drenada com sucesso a via biliar, o tempo de antibioticoterapia pode se limitar a quatro a sete dias.
Uma exceção proeminente, entretanto, é a indicação de, pelo menos, 14 dias de antibióticos na bacteremia por gram-positivos (Enterococos e Estreptococos), sob o pretexto de mitigar o risco de endocardite infecciosa.
O estudo de Kim e colaboradores, publicado em junho/2025 no World Journal of Hepatology, abordou, de forma pioneira, uma lacuna importante na prática clínica:
Qual a duração ideal da antibioticoterapia em pacientes com colangite aguda complicada por bacteremia por cocos gram-positivos após a drenagem satisfatória da via biliar?
O desenho do estudo e os seus principais resultados
Trata-se de uma coorte retrospectiva e unicêntrica, realizada no St. Luke’s International Hospital de Tóquio/Japão.
- População: Adultos internados com colangite aguda e bacteremia por gram positivos internados entre 2003 e 2023 e submetidos à drenagem satisfatória da via biliar por CPRE nos primeiros 4 dias e seguidos por um período de 3 meses;
- Intervenção: Antibioticoterapia encurtada (<14 dias);
- Comparador: Antibioticoterapia prolongada (≥14 dias);
- Desfecho primário: Mortalidade em 30 dias.
Foram excluídos casos de obstrução maligna da via biliar ou de inviabilidade de drenagem com sucesso das vias biliares.
A amostra foi modesta (N = 44), com mediana de idade de 76 anos, predominância do sexo masculino (61%) e as etiologias mais frequentes foram coledocolitíase, divertículo periampular e obstrução de stents biliares previamente inseridos.
O desfecho primário foi a mortalidade em 30 dias, enquanto os secundários incluíram taxa de recorrência de colangite e reinfecção, bem como tempo de internação.
|
Tratamento |
Encurtado |
Prolongado |
P valor |
|
N° de pacientes |
19 |
25 |
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Tempo mediano de antibióticos (dias) |
9 |
16 |
< 0,05 |
|
Tempo mediano de antibióticos EV |
8 |
12 |
|
|
Tempo mediano de internação |
12 |
14 |
0,092 |
|
Colangite grau III |
42,1% |
48% |
|
|
Taxa de realização de ecocardiograma |
36,8% |
72% |
0,042 |
|
Mortalidade em 30 dias |
0 |
0 |
|
Não foi observada diferença significativa entre os grupos quanto à mortalidade (0% em ambos grupos) e taxa de recorrência (5,3% vs. 8%) ou reinfecção (0% em ambos grupos). Além disso, foi observada tendência a um menor tempo de internação (12 vs. 14 dias, P = 0,092) no grupo de terapia encurtada.
Limitações
As principais limitações do estudo foram o desenho retrospectivo, pequeno tamanho amostral e ausência de protocolo sistemático de ecocardiografia e hemoculturas seriadas, o que pode ter limitado a sensibilidade diagnóstica para endocardite.
O viés de indicação para o grupo de antibioticoterapia prolongado parece ter sido motivado pela percepção de maior gravidade clínica nesse subgrupo, fato corroborado pela tendência à maior proporção, no grupo de antibioticoterapia prolongada, de:
- Colangite grau III (42% vs. 48%);
- Par de hemoculturas positivas (32% vs. 76%);
- Alocação em CTI (15,8% vs. 28%);
- Uso de vasopressores (10,5% vs. 28%);
- Uso de penicilinas (47,4% vs. 92%) e glicopeptídeos (10,5% vs. 44%);
- Exposição prévia a imunossupressores (0 vs. 4%) ou corticoides (0 vs. 8%).
Além disso, a dicotomização em 14 dias não reflete a tendência moderna de antibioticoterapia bem mais curta na colangite (por exemplo, 4 dias) nos outros cenários.
Conclusão e mensagens práticas
- Uma vez controlado o foco infeccioso biliar, a bacteremia por cocos gram-positivos, no contexto da colangite, parece não demandar cursos estendidos de antibióticos.
- Há espaço para uma abordagem individualizada na definição do tempo da antibioticoterapia, mas os dados desse estudo precisam ser revistos em RCTs maiores e meta-análises, especialmente pela amostra pequena, natureza unicêntrica e retrospectiva e, principalmente, pela suspeita de viés de indicação baseado na maior gravidade clínica do grupo de antibioticoterapia prolongada.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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