O controle da dor é fundamental para qualquer pós-operatório, um controle ineficaz está relacionado a piores desfechos. Sem dúvida o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINES) é um importante agente dentro da gama de alternativas que temos. Sabemos que o uso indiscriminado de AINES está diretamente relacionado a alterações de mucosa gastro intestinal, com complicações graves com perfurações de úlceras gástricas.
Foi hipotetizado se o uso de AINES, por causar alteração de mucosa, poderia estar relacionada a um aumento de fístula em pós-operatórios. Isto já foi estudado por alguns artigos anteriores, porém com resultados possíveis de serem questionados. Este novo artigo publicado na BMC Anesthesiology, revisa este tema fazendo novas análises pertinentes sobre o tema.

Métodos
Estudo retrospectivo, que avaliou banco de dados chinês no período de 2008 a 2019, de pacientes submetidos a cirurgias gastrointestinais com duração maior de 60 minutos, sob anestesia geral. Foi determinado como desfecho primário a presença de fístula cirúrgica e o uso de AINES, seletivo ou não, como o agente diferenciador entre os grupos. Qualquer utilização de AINES nos 3 primeiros dias de pós-operatório, enquadrava os pacientes no grupo do uso de AINES. Para a análise estatística foi um utilizado o escore de propensão de risco numa proporção de 1:1, e posteriormente a análise multivariada estratificou por diferentes cenários como sexo, tipo de cirurgia e uso de quimioterapia.
Resultados
Um total de 18.312 pacientes foram incluídos no estudo com 45,9% (8.495) tendo utilizado AINES, sendo o mais comum parecoxib (n= 4.760). Um total de 296 (1,6%) casos de fístulas foram detectadas com 204/8.405 (2,43%) no grupo AINES e 92/9.907(0,93) no grupo controle (P<0,001).
Após fazer o escore de propensão de risco, houve o pareamento de 6.458, a relação entre o uso de AINES e fístula, permaneceu consistente com uma RC 1,95 95% IC 1,48 – 2,57 P< 0,001. Ao se comparar o uso de AINES seletivos e não seletivos, a associação se manteve para o grupo seletivo, porém sem relação estatística para os não seletivos RC 1,29, 95% IC 0,92–1,83, P = 0,145.
O uso de AINES esteve relacionado a um menor tempo de internação hospitalar, e não houve alteração em outras complicações como sangramentos, insuficiência renal ou aumento da mortalidade hospitalar.
Discussão
Este estudo faz uma clara correlação entre o uso de AINES Cox-2 seletivo com complicações da anastomose. Alguns estudos em animais já haviam previsto este desfecho por alterações no processo de cicatrização da submucosa e inibindo a migração de células epiteliais.
Foi também identificado que cirurgias com maior duração, homens e quimioterapia prévia também estavam relacionadas a piores desfechos. Como exemplo, a associação quimioterapia e AINES apresentou um RC de 4,34 para o surgimento de fístula.
Em razão disto deve-se ter cautela para o uso de AINES Cox-2 seletivo para o controle álgico no pós-operatório.
Para levar para casa
Esse não é o primeiro estudo a condenar o uso de AINES seletivos, assim devemos ter cautela e monitorar nossos pacientes. A realidade do Brasil é outra, pois aqui temos o uso corriqueiro da dipirona a qual se prova ser um excelente analgésico. Gostaria de estudos com maior peso para determinar, ou não, a validade desta nossa alternativa.
Autoria

Felipe Victer
Editor Médico de Cirurgia Geral da Afya ⦁ Residência em Cirugia Geral pelo Hospital Universitário Clementino fraga filho (UFRJ) ⦁ Felllow do American College of Surgeons ⦁ Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ⦁ Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Gastrointestinal e Endoscópica (Sages) ⦁ Ex-editor adjunto da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2016 a 2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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