Logotipo Afya
Anúncio
Cirurgia22 abril 2026

Seton frouxo vs. seton de corte: qual a melhor opção na fístula anal?

Seton frouxo melhora qualidade de vida na fístula perianal, sem diferença entre técnicas de nó, segundo estudo recente.

A fístula perianal é uma doença frequente e com impacto importante na qualidade de vida. O uso do seton (ou sedenho), principalmente o sedenho frouxo, tem papel relevante tanto no controle dos sintomas quanto no preparo para tratamentos definitivos futuros, como LIFT (ligadura esfincteriana), LAFT (ablação do trato fistuloso por laser) e retalho de avanço endorretal, podendo aumentar a chance de sucesso dessas abordagens.  

Diferente do sedenho de corte, que costuma causar mais dor e desconforto, o sedenho frouxo oferece melhor equilíbrio entre eficácia e conforto, sendo inclusive uma opção de longo prazo em fístulas complexas, recorrentes ou com risco de incontinência.  

Com base nisso, um estudo recente buscou avaliar se diferentes técnicas de nó do sedenho influenciam a qualidade de vida e o conforto perianal dos pacientes. 

fístula anal

Métodos 

Trata-se de um ensaio clínico prospectivo, randomizado e controlado, realizado entre 2021 e 2024 na Universidade de Ankara. Foram incluídos apenas pacientes com fístula anal alta transesfincteriana, pois nesses casos a fistulotomia teria alto risco de incontinência. No total 63 pacientes foram incluídos no estudo.  

O diagnóstico foi feito por ressonância magnética pré-operatória ou exame sob anestesia, sendo a ressonância mais utilizada em casos de suspeita de fístulas complexas. Os 63 pacientes foram distribuídos por randomização em blocos em três grupos com 21 pacientes cada.  

O grupo A recebeu seton com nó em configuração alfa, o grupo B recebeu seton em anel com extremidades sobrepostas e o grupo C recebeu seton sem nó (SuperSeton®). A randomização foi realizada por computador, com blocos de 6.  

Os investigadores tinham conhecimento da alocação dos pacientes, mas os pacientes permaneceram cegos em relação ao grupo ao qual pertenciam.  

Todos os setons utilizados eram de silicone de grau médico, sendo que nos grupos A e B foram usadas alças vasculares comuns. Além disso, foram coletados dados clínicos e demográficos, como idade, sexo, IMC, tabagismo, sintomas, exames de imagem e presença de abscesso perianal.  

A qualidade de vida foi avaliada por meio do questionário QoLAF-Q que engloba a pontuação do componente físico (PCS) e pontuação do componente mental (MCS)   aos 15, 30 e 90 dias após a cirurgia. 

Resultados 

Nos 63 pacientes avaliados, os três grupos apresentaram características iniciais semelhantes, sem diferenças importantes entre idade, IMC, tabagismo ou tempo cirúrgico (p > 0,05). Os principais sintomas em todos os grupos foram abscesso, secreção, dor e sangramento.

Ao longo do seguimento, houve algumas complicações pontuais, mais frequentes nos grupos B (3 pacientes com abscessos secundários e 2 pacientes com fístulas secundárias) e C (2 pacientes com deslocamento do seton e 1 paciente com dor intensa), enquanto o grupo A não apresentou complicações nos primeiros 3 meses.  

A continência anal permaneceu globalmente preservada, sem diferença significativa entre os grupos. Em relação ao desfecho principal, a qualidade de vida melhorou progressivamente em todos os grupos ao longo de 15, 30 e 90 dias, mas sem superioridade estatística de nenhum tipo de nó de seton sobre os outros e, sobre a PCS e MCS. 

Discussão 

Atualmente, não existe consenso sobre a melhor abordagem para fístula anal complexa, pois é necessário equilibrar erradicação da doença com preservação da continência. Nesse contexto, o seton frouxo continua sendo uma opção importante e segura, especialmente em casos complexos e no tratamento prolongado. O estudo mostrou que, embora diferentes tipos de nó possam teoricamente influenciar o conforto perianal, não houve diferença significativa entre os grupos na qualidade de vida pós-operatória 

Em todos os grupos, houve melhora progressiva da qualidade de vida ao longo do tempo, com preservação da continência. Os autores também comparam seus achados com a literatura, mostrando que estudos prévios sugerem boa tolerância ao seton e possível vantagem dos modelos sem nó em relação à irritação local, mas sem evidência definitiva de superioridade.  

No presente estudo, o grupo sem nó não foi estatisticamente melhor que os demais. Entre os pontos fortes estão a amostra homogênea, a randomização em blocos e o uso de um questionário validado. As principais limitações foram ser um estudo unicêntrico, com seguimento relativamente curto, sem avaliação de custo, facilidade técnica ou satisfação do cirurgião.  

Houve variações entre os três grupos nos dias 15, 30 e 90 de avaliação, porém essas diferenças não alcançaram significância estatística dentro do tamanho da amostra estudada. O uso de setons frouxos esteve associado à melhora da qualidade de vida em todos os grupos. Estudos futuros, com maior número de pacientes em cada subgrupo, poderão esclarecer melhor se existem diferenças reais entre as técnicas.  

Além disso, novas pesquisas devem comparar os diferentes métodos de fixação do seton empregados na prática clínica, com atenção especial ao impacto sobre a qualidade de vida, sobretudo em pacientes com doença de Crohn e em períodos de seguimento mais longos. 

Mensagem prática: 

1 – O tipo de nó não interfere no tratamento da fístula perianal. 

2 – O uso do seton frouxo deve ser estimulado e preferível para tratamento da fístula perianal. 

Autoria

Foto de Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral  na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Cirurgia