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Cirurgia16 janeiro 2026

Robô e a cirurgia esofágica

Revisão sistemática avaliou a implementação e a eficácia da esofagectomia minimamente invasiva assistida por robô (RAMIO).
Por Felipe Victer

As novas tecnologias são disponibilizadas e muitas vezes não sabemos o real benefício, ficando parte deste “dito benefício” com experiência pessoal dos primeiros a ter acesso. Isto não é distinto com o uso da plataforma robótica. A esofagectomia, é uma cirurgia muito mórbida, e com o uso das técnicas minimamente invasivas, a morbidade e resultados têm melhorado.  

Uma revisão sistemática publicada no British Journal of Surgery em dezembro 2025, avalia justamente a implementação e a eficácia da esofagectomia minimamente invasiva assistida por robô (RAMIO). Utiliza como parâmetro a perspectiva do framework IDEAL.  

(Nota: este conceito exemplifica várias fases da incorporação de uma tecnologia desde a sua concepção até a utilização em larga escala). 

Métodos 

Metaanálise de estudos que compararam o tratamento por RAMIO com esofagectomia aberta ou laparoscópica. O objetivo inicial foi classificar os diferentes estudos nos estágios do framework IDEAL e posteriormente aqueles classificados como estágio 3 e 4 analisar quanto aos desfechos oncológicos. (Nota: estágio 3 -> avaliação da técnica; estágio 4 -> resultados a longo prazo). 

Resultados 

A pesquisa incluiu 104 estudos publicados entre 2002 e 2025, abrangendo um total de 133.107 pacientes.  

A classificação dos estudos de acordo com os estágios do IDEAL revelou que a grande maioria (86 estudos) pertencia ao estágio 2B (exploração), enquanto apenas quatro estudos foram classificados como estágio 3 (avaliação via RCTs) e 14 como estágio 4 (estudos de longo prazo). Uma observação crítica dos autores foi que, embora o desenvolvimento global da RAMIO tenha seguido a progressão lógica do IDEAL, nenhum dos estudos incluídos fez referência explícita a esse framework, sugerindo uma falta de adesão formal a diretrizes estruturadas de inovação cirúrgica. 

No que tange à eficácia clínica analisada nos estudos de estágio 3, os resultados apontam benefícios perioperatórios claros para a cirurgia robótica. O ensaio holandês ROBOT (n=109) demonstrou que a RAMIO, quando comparada à esofagectomia aberta, resultou em menos complicações pós-operatórias globais (59% x 80%; RR 0,74 ; IC 95%; 0,57 a 0,96; P = 0.02),e também menor perda sanguínea e redução da dor. 

Resultados semelhantes também foram encontrados nos estudos orientais RAMIE e REVATE que evidenciaram vantagens técnicas importantes, como uma dissecção de linfonodos superior com um maior número (15 linfonodos x 12 linfonodos; p=0,016), e também uma melhor dissecção ao longo do nervo laríngeo recorrente esquerdo, o que se traduziu em taxas menores de paralisia deste nervo. Isto foi válido tanto para as paralisias temporárias (20.4% x 34.0%, P = 0,029), como para as paralisias permanentes (5.8% x 20.0%, P = 0,003). 

A análise dos estudos de estágio 4 indica que as vantagens oncológicas a longo prazo da RAMIO ainda são incertas. A maioria dos estudos baseados em grandes registros, como o National Cancer Database dos EUA, não encontrou diferenças significativas na sobrevida global ou na sobrevida livre de doença entre a RAMIO e as abordagens abertas ou laparoscópicas. Adicionalmente, a qualidade de vida a longo prazo (após um ano) parece ser comparável entre as diferentes técnicas cirúrgicas. 

Do ponto de vista econômico e geográfico, a revisão observou que os custos hospitalares totais da RAMIO são comparáveis aos da esofagectomia aberta e laparoscópica, mas análises detalhadas de custo-efetividade ainda são escassas. A maioria dos estudos incluídos estão concentrados em países de alta renda, como Estados Unidos, China, Japão e Europa, o que limita a generalização dos resultados para outros sistemas de saúde. 

Discussão  

Este estudo buscou determinar se os trabalhos sobre a utilização da cirurgia robótica nas esofagectomias estão seguindo os protocolos do framework IDEAL . Nenhum estudo incluído citou o protocolo IDEAL mesmo aqueles classificados como de pesquisa, o que está em linha com outros estudos publicados em outras áreas como gastrectomias e colecistectomias assistidas por robô. A inclusão dos trabalhos dentro de um protocolo envolve alguns benefícios de transparência e reprodutividade, porém às custas de um maior dispêndio para esta realização  

Em conclusão, embora a RAMIO ofereça benefícios de recuperação a curto prazo e vantagens técnicas na linfadenectomia, as evidências de alta qualidade sobre sua superioridade a longo prazo são limitadas, destacando a necessidade de futuros ensaios que adotem rigorosamente o design estruturado do framework IDEAL 

Para levar para casa 

A esofagectomia robótica é uma realidade com diversos benefícios. Enquadrar em protocolos de pesquisa é mais uma ferramenta para termos uma melhor robustez nos dados.  

Autoria

Foto de Felipe Victer

Felipe Victer

Editor Médico de Cirurgia Geral da Afya ⦁  Residência em Cirugia Geral pelo Hospital Universitário Clementino fraga filho (UFRJ) ⦁ Felllow do American College of Surgeons ⦁ Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ⦁ Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Gastrointestinal e Endoscópica (Sages) ⦁ Ex-editor adjunto da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2016 a 2019) ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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