O ensino de procedimentos cirúrgicos passa por uma transformação importante. Restrições de carga horária, maior preocupação com segurança do paciente e menor tolerância a erros tornaram o treinamento prévio fora do ambiente assistencial cada vez mais relevante. Nesse contexto, ferramentas de simulação e recursos audiovisuais avançados ganharam espaço na formação médica.
A realidade virtual (Virtual Reality – VR) surge como uma dessas ferramentas, com potencial para aumentar o engajamento e padronizar o ensino. Entre suas modalidades, a realidade virtual imersiva (immersive VR – iVR) se destaca por inserir o aprendiz em um ambiente tridimensional em 360°, com perspectiva em primeira pessoa e áudio espacial, aproximando o treinamento da experiência real.
Um estudo recente avaliou se a iVR é capaz de melhorar o aprendizado e o desempenho inicial em procedimentos cirúrgicos quando comparada aos vídeos tradicionais em 2D e à VR em desktop.
Metodologia
Trata-se de um estudo prospectivo, randomizado e controlado, realizado no Luminis Health – Anne Arundel Medical Center (EUA), que avaliou o uso da iVR como ferramenta de ensino de procedimentos. O procedimento escolhido foi a inserção de cateter venoso central (CVC), por se tratar de uma técnica multi-etapas, com sequência bem definida e aplicável como modelo para outros procedimentos cirúrgicos.
Os participantes, sem experiência prévia no procedimento, foram randomizados para assistir a um vídeo instrucional em três formatos distintos: vídeo convencional em 2D, realidade virtual em desktop (dVR) e realidade virtual imersiva com headset.
Após a intervenção educacional, os participantes foram avaliados em três domínios principais:
- Conhecimento teórico, por meio de teste objetivo de múltipla escolha
- Confiança em procedimentos, utilizando escala de Likert
- Desempenho prático inicial, avaliado em simulação por dois examinadores cegos, com checklist estruturado
O desfecho primário foi o desempenho prático na primeira execução do procedimento. Os desfechos secundários incluíram ganho de conhecimento, nível de confiança e experiência subjetiva do usuário.
Principais resultados
Ao todo, 43 participantes completaram o protocolo do estudo.
Em relação ao conhecimento teórico, não houve diferença significativa entre os grupos após o treinamento. O ganho de conhecimento foi semelhante independentemente do formato utilizado, indicando que a iVR não compromete a assimilação cognitiva do conteúdo.
Quanto à confiança em realizar os procedimentos, todos os grupos apresentaram aumento após o treinamento, sem diferenças estatisticamente significativas entre eles.
Já na avaliação do desempenho prático inicial, observou-se um resultado relevante: os participantes que utilizaram a realidade virtual imersiva apresentaram uma tendência a melhor desempenho na simulação prática, mesmo após ajuste para o nível de conhecimento pós-treinamento (P = 0,054). Embora o valor não tenha atingido significância estatística plena, o achado sugere benefício clínico potencial.
Além disso, a experiência do usuário foi claramente superior no grupo iVR. Todos os participantes consideraram o método mais envolvente do que o vídeo tradicional, com baixa taxa de efeitos adversos e preferência quase unânime pelo uso da tecnologia em treinamentos futuros.
Limitações
Os autores destacam algumas limitações importantes:
- Tamanho amostral inferior ao ideal calculado para o estudo
- Realização em único centro
- Avaliação em ambiente simulado
- Procedimento fora da prática habitual dos participantes
Ainda assim, os resultados são consistentes como prova de conceito e apontam para aplicações mais amplas.
O que esse estudo agrega à prática do cirurgião?
Para o médico cirurgião, independentemente da especialidade, a principal mensagem é clara: a realidade virtual imersiva não substitui o treinamento prático supervisionado, mas pode otimizar de forma significativa a preparação pré-procedimento.
A iVR se mostra especialmente útil para:
- Organização mental da sequência técnica
- Familiarização com posicionamento, campo operatório e instrumental
- Redução da sobrecarga cognitiva no primeiro procedimento real
- Padronização do ensino em residências médicas e serviços cirúrgicos
Em um cenário de crescente exigência por segurança e eficiência, ferramentas que permitem ao cirurgião “chegar mais preparado” ao primeiro procedimento tendem a ganhar espaço. A tradição do aprendizado cirúrgico permanece: bisturi, supervisão e repetição, mas agora com um aliado tecnológico que antecipa erros e acelera a curva de aprendizado.
Autoria

Luiz Anderson Bevilaqua Bandeira
Neurocirurgião ⦁ Doutorando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC) ⦁ Mestre em Tecnologia Minimamente Invasiva e Simulação na Saúde pela UniChristus ⦁ Especializações em Saúde da Família, Direito Médico e Intervenção em Neuropediatria ⦁ Especialista em intervenções complexas e inovação em saúde ⦁ Desenvolvedor do simulador virtual XNeuro 1.0, pioneiro no treinamento sobre pressão intracraniana ⦁ Docente em neurocirurgia, neurofisiologia e neuroanatomia ⦁ Preceptor de residência médica em Neurocirurgia ⦁ Revisor científico
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