O uso da radioscopia é rotina na prática ortopédica moderna se tornando essencial para cirurgias realizadas para o tratamento de fraturas, artroplastias e cirurgias da coluna. Mas, enquanto nos preocupamos com a proteção do paciente e com o câncer induzido por radiação, pouca atenção se dá ao dano cumulativo na pele das mãos do cirurgião.
Lesões como hiperceratose, descamação, alterações ungueais e até carcinomas já foram descritas. A questão que fica é: temos como mudar essa realidade? Um estudo recentemente publicado em 2026 no “Journal of Bone and Joint Surgery” investiga esse assunto.

Estudo investigando este assunto
Trata-se de um estudo longitudinal com seguimento de 5 anos (2019-2024) que acompanhou 86 cirurgiões ortopédicos da Universidade de Hirosaki para avaliar mudanças na exposição ocupacional à radiação e lesões de pele induzidas por radiação.
Entre as duas avaliações, foram realizadas campanhas educacionais obrigatórias (2020-2023) fomentando o uso de equipamentos de proteção individual. Os participantes responderam a questionários sobre atitudes e tempo semanal autorrelatado de fluoroscopia, além de serem submetidos a avaliações dermatológicas com fotografias padronizadas das mãos, classificadas por dois dermatologistas independentes (escala de 0 a 2).
A análise estatística utilizou testes de Wilcoxon para comparações pareadas e regressão logística para identificar preditores de melhora das lesões cutâneas. O estudo não incluiu grupo controle nem dosimetria objetiva, baseando-se em exposição auto-relatada.
A educação mudou a atitude em relação à radiação?
Sim, e de forma expressiva. A proporção de cirurgiões que se declararam “cautelosos” ou “sempre cautelosos” em relação à exposição ocupacional saltou de 5,8% em 2019 para 70,9% em 2024. Embora o estudo não possa estabelecer relação causal definitiva (por não haver grupo controle e depender de autorrelato), a associação temporal é impressionante e consistente com a literatura sobre treinamento em segurança radiológica.
A exposição semanal diminuiu?
Também sim, de forma modesta, porém significativa. O tempo mediano semanal autorrelatado de fluoroscopia caiu de 10 minutos (IQR 4-18) em 2019 para 8 minutos (IQR 3-14) em 2024 (p = 0,045). A média passou de 13,3 ± 13,0 minutos para 10,7 ± 10,9 minutos.
O estudo tem uma limitação importante aqui: o tempo de exposição foi autorrelatado, sujeito a viés de memória e potencialmente ao efeito Hawthorne (cirurgiões sabem que estão sendo observados e tendem a relatar menor exposição). A ausência de dosimetria individual objetiva impede uma conclusão definitiva sobre a real redução da exposição.
As lesões cutâneas melhoraram?
Sim. A prevalência de lesões cutâneas induzidas por radiação, classificadas por dois dermatologistas com estratégia de cegamento apresentou excelente concordância interobservador (kappa ponderado 0,910), caiu de 34,9% para 25,6% no período. Entre os 86 participantes do estudo longitudinal, 15,1% melhoraram o grau da lesão (a maioria de grau 1 para 0), 79,1% permaneceram estáveis e apenas 5,8% pioraram.
Nenhuma lesão grau 2 (dermatite crônica grave ou lesão pré-cancerosa/cancerosa) evoluiu a partir de grau 0. Novos casos de grau 2 foram raros e restritos ao grupo de cirurgiões com mais de 20 anos de experiência, o que pode refletir tanto exposição cumulativa ao longo da carreira quanto alterações cutâneas relacionadas à idade não atribuíveis à radiação.
Quem mais se beneficiou das campanhas?
A análise multivariada mostrou que não ser cirurgião de coluna foi o único fator preditor de melhora da lesão cutânea (OR 0,233; p = 0,031). Isso provavelmente reflete o fato de que procedimentos de coluna, especialmente implante de parafusos pediculares guiados por fluoroscopia exigem maior tempo de exposição e posicionamento das mãos mais próximo ao feixe de radiação.
As lesões ocorreram predominantemente na mão dominante, o que reforça a necessidade de estratégias ergonômicas e de proteção localizada.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo japonês nos ensina que campanhas educativas repetidas e consistentes podem melhorar atitudes, reduzir o tempo autorrelatado de fluoroscopia e melhorar as condições da pele das mãos.
Apesar dos achados, os resultados devem ser interpretados com cautela. A ausência de dosimetria objetiva, de grupo controle e o desenho unicêntrico são limitações significativas. Ainda assim, os achados apoiam a implementação de programas contínuos de educação em segurança radiológica, com atenção especial aos cirurgiões de coluna e à proteção da mão dominante.
Autoria

Rafael Erthal
Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁ Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁ Especialista em cirurgia de joelho ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
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