O carcinoma escamoso (CEC) de cabeça e pescoço recorrente ou metastático apresenta sobrevida global (SG) historicamente limitada. Atualmente, com o advento da imunoterapia, esquemas de primeira linha com pembrolizumabe associado à quimioterapia (QT) são utilizados para pacientes com CPS escore ≥ 1. Apesar disso, os regimes de QT isolada seguem com papel importante na população que não contemple ou não tenha acesso à indicação.
O regime mEXTREME (cisplatina, fluorouracil e cetuximabe) consolidou-se como padrão de primeira linha após demonstrar benefício em relação à quimioterapia isolada. Entretanto, sua toxicidade é significativa, especialmente em populações asiáticas, que apresentam menor tolerância. Paralelamente, o esquema mTPEx (docetaxel, cisplatina e cetuximabe) demonstrou resultados similares, com tendência a melhor tolerabilidade.
No âmbito deste debate, foi recentemente publicado na JAMA o estudo TEMPER. O intuito da pesquisa é de comparar, na população japonesa, eficácia e segurança entre os dois protocolos.

Metodologia
Ensaio clínico multicêntrico, randomizado, aberto e exploratório conduzido em 21 centros exclusivamente no Japão. Foram recrutados 61 pacientes com diagnóstico de CEC de cabeça e pescoço, bom status performance, função renal adequada e doença mensurável por RECIST, excluindo uso prévio de quimioterapia nos últimos 6 meses ou exposição prévia a cisplatina em altas doses. A randomização ocorreu 1:1 entre os grupos que realizavam quimioterapia aos moldes mEXTREME ou mTPEx, com estratificação por status p16 e performance status (ECOG 0 ou 1). O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão (SLP), enquanto os desfechos secundários foram SG, taxa de resposta e segurança.
O desfecho primário foi equivalente entre os grupos, sem significância estatística (6 meses mEXTREME x 5,3 meses mTPEx; p=0,28). Sobrevida global também foi similar, com 17,4 meses x 18,7 meses (p=0,72). Taxa de resposta favoreceu o grupo mTPEx, sem significância estatística (45 x 67%). A segurança, variável relacionada aos eventos adversos, também não favoreceu nenhum dos dois grupos.
Discussão para pensar
- N reduzido: TEMPER foi limitado pelo período em que ocorreu o recrutamento, marcado pelo início dos protocolos associados a imunoterapia. O N reduzido torna difícil delimitar significância estatística para os desfechos desenhados, embora o tempo de seguimento tenha sido adequado.
- Sem randomização por CPS: Não houve identificação do escore CPS das amostras tumorais dos participantes, igualmente pelo importuno período de realização do desenho. A potencial discrepância entre os grupos quanto à população candidata a imunoterapia é bastante relevante nos estudos atuais e reduz o potencial de relevância do ensaio.
- Taxa de redução tumoral: Embora haja limitações na interpretação de resultados ao se realizar um estudo exclusivamente um uma população, neste caso japonesa, houve uma tendência de maior resposta com mTPEx. Indiretamente pode-se inferir maior redução tumoral. Tal variável é importante pois, embora não altere prognóstico, é um dado indireto de qualidade de vida, especialmente em pacientes sintomáticos. Ressalta-se, inclusive, qualidade de vida como um dado importante na comparação entre dois regimes de quimioterapia, mal avaliado neste estudo.
O que levar para a prática clínica?
Ambos os regimes mEXTREME e mTPEx são hoje igualmente adequados para a primeira linha do CEC de cabeça e pescoço metastático. A escolha deve residir na disponibilidade das medicações e comorbidades. mTPEx possui tendência de escolha devido a posologia, sendo realizado uma vez a cada 3 semanas em detrimento de 5 dias seguidos de infusão do esquema mEXTREME.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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