A confecção de estomas ou ostomias é um procedimento cirúrgico muito utilizado atualmente em cirurgias de câncer colorretal, doenças inflamatórias e em cirurgias de emergência relacionadas ao intestino delgado e grosso.
São comumente confeccionadas no íleo (ileostomias) ou no intestino grosso (colostomias), e podem ser alternativas para exclusão temporária do trânsito intestinal até uma cicatrização adequada; e até definitiva em alguns outros casos específicos.
Após a confecção dessas ostomias, podem ocorrer complicações em curto prazo, tais como retração, necrose do estoma, alto débito e obstrução da saída do estoma (OSE); e complicações em longo prazo, que são o prolapso, estenose, ferimentos na pele adjacente e hérnia paraestomal.
A OSE é uma condição que ocorre uma interrupção do conteúdo intestinal no estoma em virtude de um bloqueio mecânico, levando à dor e distensão abdominal, náuseas, vômitos, com indicação de abordagem cirúrgica imediata. A sua incidência varia em virtude das diferentes técnicas cirúrgicas realizadas, o tipo de população estudada e as definições de um processo obstrutivo.
Nesse sentido, o objetivo de um recente estudo sobre o tema é determinar as principais causas e os principais fatores de risco envolvidos na OSE.

Métodos
Trata-se de uma revisão sistemática e metanálise, seguindo as diretrizes PRISMA de 2020. A base de dados envolveu PubMed, Embase, Scopus, Cochrane Library e CINAHL Ultimate. Após os critérios de inclusão e exclusão, foram obtidos 16 artigos, do tipo coorte restrospectivo, relacionados à obstrução da saída do estoma.
A heterogeneidade foi avaliada utilizando a estatística I² e o teste Q de Cochrane, com heterogeneidade estatisticamente significativa definida como p < 0,05 para o teste Q de Cochrane ou I² > 50%. As análises estatísticas foram realizadas utilizando o Stata 18.
Resultados
Após a seleção dos 16 artigos relacionados à OSE, definiu-se uma amostra de 2228 pacientes, nos quais 362 evoluíram com OSE, com uma incidência estimada em 16%.
A espessura do músculo reto abdominal foi relatada em 5 dos 16 artigos como um fator de risco significativo para desenvolvimento de OSE (OR 4,04; IC 95%: 2,36–6,93). Outro fator de risco significante foi o débito alto pelo estoma superior a 1500 e 2000 ml/24h, promovendo distúrbio hidroeletrolítico (OR 4,16; IC 95%: 2,03–8,51). Ileostomias confeccionadas em alça também estão envolvidas como fator de risco significativo para OSE (OR 6,53; IC 95%: 2,03–8,51).
Já o fator idade, apesar de ser demonstrado significância estatística no estudo feito por Abe et al., a associação final não evidenciou relevância com OR 1,69 (IC 95%: 0,44–6,54).
Outros fatores de risco secundários foram observados, porém com evidências menos consistentes, que incluem anastomose ileo-anal com reservatório com risco de 47% de OSE; distância entre o reservatório ileal e a ileostomia inferior a 30 cm e índice de massa corporal (IMC) maior que 22,2 concomitante a aumento de espessura do tecido subcutâneo.
Discussão
Os resultados reforçam que os aspectos anatômicos e as decisões cirúrgicas durante a confecção do estoma influenciam no risco de obstrução da saída do estoma.
A espessura do músculo reto abdominal pode causar um aumento da pressão sob o trajeto do estoma, levando a bloqueios do fluxo intestinal, enquanto estomas de alto débito cursam com distúrbios hidroeletrolíticos e alterações patológicas (edema intestinal e redução prolongada da absorção) que aumentam a suscetibilidade à obstrução.
É importante tomar alguns cuidados durante a realização destes procedimentos cirúrgicos com otimização da técnica de maturação do estoma, evitando torção do mesentério e angulação da alça intestinal; posicionamento adequado da alça e dimensionamento correto da abertura adequada para reduzir o índice de OSE. O acompanhamento pós-operatório, principalmente nas primeiras semanas da intervenção cirúrgica, é muito importante para uma boa vigilância clínica e detecção de alterações precoces.
Mensagem prática
1 – A obstrução de saída do estoma (OSE) é uma complicação que cursa com abdome agudo obstrutivo e geralmente requer intervenção imediata.
2 – Espessura aumentada do músculo reto abdominal, estomas de alto débito e confecção de ileostomia em alça são fatores de risco para ocorrência da OSE.
3 – A idade não é fator de risco para ocorrência de OSE.
Autoria

Rodolfo Kalil de Novaes Santos
Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.