A apendicite aguda é a causa mais comum de abdome agudo cirúrgico não traumático em crianças, adultos e gestantes. Trata-se de uma doença que afeta cerca de 6% a 7% da população mundial.
Classicamente o quadro inicia-se com dor abdominal mal localizada ou na região periumbilical, com posterior migração para o quadrante inferior direito. Entretanto, essa apresentação nem sempre é tão clássica, especialmente em populações especiais como gestantes. O tratamento padrão-ouro é a cirurgia, preferencialmente por via laparoscópica.
Com base nas evidências atuais, a Sociedade Americana de Cirurgiões Gastrointestinais e Endoscópicos (The Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons – SAGES) desenvolveu recomendações feitas por um grupo de cirurgiões para auxiliar médicos no diagnóstico e tratamento da apendicite aguda.
Métodos
A diretriz da SAGES foi elaborada através de revisões da literatura em resposta para 8 questões sobre apendicite. As bases de dados pesquisadas foram PubMed, Cumulated Index to Nursing and Allied Health Literature, Embase, Cochrane Library e Clinicaltrials.gov. As recomendaçõe baseadas em evidências foram formuladas utilizando a metodologia GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development, and Evaluation) por especialistas no assunto.
As recomendações foram classificadas como “forte” e “condicional”, sendo essa apresentada como “o painel de diretrizes sugere”. Nas respostas para as 8 questões levantadas, o grau de recomendação foi “condicional”. As recomendações condicionais significam que os benefícios provavelmente superam os malefícios, mas há algum grau de incerteza que pode ser devido à falta de evidências de alta qualidade.

Recomendações
A cirurgia continua sendo o padrão-ouro no tratamento da apendicite aguda não complicada. Em relação ao diagnóstico a SAGES recomenda a ultrassonografia abdominal como exame de imagem inicial, sendo a tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RNM) realizados conforme necessário ou em dúvidas quanto ao diagnóstico.
Não foram recomendados lavagem da cavidade abdominal em casos de perfuração, apenas aspiração. O uso rotineiro de drenos também não está indicado. Não há indicação do uso de antibióticos no pós-operatório para apendicites não complicadas.
Nos casos de apendicites complicadas ou tardias que foram tratadas apenas com antibioticoterapia venosa e drenagem de abscesso, sem apendicectomia, a cirurgia denominada apendicectomia de intervalo está recomendada, especialmente em pacientes com mais de 40 anos. Esse assunto é, de certa forma, polêmico, com recomendações não uniformes. Entretanto, a justificativa da SAGES para recomendação da apendicite de intervalo é que novas evidências revelam uma taxa relativamente alta de neoplasia na análise dos apêndices ressecados na cirurgia de intervalo.
A cirurgia na apendicite não complicada deve ser realizada o mais rápido possível após o diagnóstico para diminuir o risco de perfuração.
Em relação ao tempo de antibioticoterapia nos casos de apendicite complicada, esse deve ser curto, preferencialmente entre 3 a 5 dias, visando evitar resistência, infecção por Clostridium difficile e infecções do trato urinário. Períodos maiores de antibioticoterapia nesses casos não têm evidências de benefício adicional na redução do abscesso.
Mensagem final
As recomendações da SAGES servem como um direcionamento de conduta. Entretanto, algumas ponderações são necessárias. Os próprios autores dessa diretriz comentam a baixa certeza das evidências para todas as questões-chave.
Ainda assim, a adesão a diretrizes estabelecidas por sociedades médicas de referência oferece respaldo técnico e segurança na tomada de decisão. Tais condutas superam abordagens puramente empíricas ou sem nenhuma evidência, o que contribui para reduzir riscos e desfechos desfavoráveis aos pacientes.
Autoria

Jader Ricco
Graduado pela UFMG ⦁ Membro do corpo clínico do Oncoclínicas Cancer Center ⦁ Cirurgião Oncológico no Instituto de Oncologia da Santa Casa ⦁ Cirurgião Oncológico e preceptor de cirurgia Geral na Santa Casa de Belo Horizonte e Hospital Vila da Serra.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.