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Cirurgia17 abril 2026

Onde estamos para realizar cirurgia no espaço?

Cirurgia no espaço: entenda os desafios da microgravidade, da latência e da robótica em missões longas como Marte.
Por Felipe Victer

Isso sempre foi o desafio e o sonho de muitos… realizar cirurgia à distância, especialmente em missões espaciais. Nos primórdios da colonização da América do Norte, os exploradores do oeste partiam em missão onde não tinha a menor chance de resgate. Um exemplo foi a expedição de Lewis e Clark, um de seus membros morreu após três meses devido a complicações intra-abdominais com alguma divergência entre os historiadores se foi um caso de apendicite ou colecistite.  

Esta falta de tratamento e ou resgate sempre foi parte do temor da NASA e até mesmo em suas missões iniciais o astronauta carregava pequenas medicações como colírios, analgésicos e antieméticos.  

Uma revisão publicada na British Journal of Surgery, nos faz refletir sobre diversos aspectos de uma cirurgia a ser realizada de forma remota e no caso em ambiente de microgravidade.  

Se formos pensar de forma estatística, num grupo de 7 pessoas da população geral numa eventual missão a Marte, ocorrerá um evento de emergência médica a cada 2,4 anos.  Também foram feitas simulações em caso de urgências médicas na estação espacial, em dois cenários, mantendo a missão até o final ou regressando com o grupo imediatamente.  

Das 100 causas médicas estudadas que necessitam de um retorno para a realização de alguma intervenção seria cálculos renais e abscessos dentários. Já se tratando de procedimento cirúrgico a apendicite estaria sendo a principal causa de óbito se a missão não fosse abortada, lembrando que em missões longas como a Marte não há a possibilidade de retorno imediato (1,58% possibilidade de óbito). 

Cirurgia aberta na microgravidade 

A cirurgia aberta no espaço pode ser um pouco mais complexa do que imaginamos. Primeiramente, o paciente, instrumental e o próprio cirurgião devem ser fixados para evitar saírem voando pela espaçonave. Além disso, a própria região cirúrgica deve conter elementos que captam todos os efluentes emanados da ferida operatória como sangue e fluidos corporais. Algumas alternativas já foram criadas como caixas transparentes que contém luvas longas em suas paredes e com isso possa realizar o procedimento.  

Durante os anos 1980, foram realizados voos parabólicos (aqueles que simulam microgravidade) e pequenos procedimentos em coelhos. Foi identificado que a sutura em ambientes de baixa gravidade apresentaram resultados semelhantes àqueles resultados na gravidade terrestre. Apesar de também terem conseguido realizar um “pack” abdominal por sangramento na microgravidade, foi demonstrado que exigiu mais trabalho e demandou mais tempo quando comparado aos procedimentos usuais.  

Cirurgia minimamente invasiva não robótica 

Ao contrário do que todos imaginavam, a cirurgia laparoscópica em microgravidade não trouxe grandes problemas de visualização, porque o próprio mesentério traciona as alças retirando da visão do cirurgião.  

Além disso, havia um incremento do volume ântero-posterior do abdome insuflado na microgravidade, quando comparado com 1G. Uma questão que houve dificuldade foi o sangramento que aderiu às alças intestinais como se fosse um lençol e isso dificultava a visualização do sítio de sangramento. Novos sistemas de cirurgia sob a instilação contínua de solução salina pode ser a solução para “lavar” os debris e com isso proporcionar uma melhor visualização.  

Cirurgia robótica na microgravidade 

Semelhante aos astronautas, os primeiros desafios da cirurgia robótica espacial foram testados em um ambiente aquático 20 metros abaixo da superfície. Diversos testes em modelos conseguiram realizar tarefas como puncionar uma veia guiada por US e até colecistectomias.  

Nos eventos seguintes de teste foram explorados a latência e a autonomia dos sistemas até que os mais modernos conseguiram localizar uma veia e após a confirmação do sítio de punção por um cirurgião distante, foi apto a realizar o cateterismo de forma autônoma.  

Em 2024 foi enviado à estação espacial uma plataforma robótica MIRA ® que conseguiu executar tarefas simples como cortar elásticos previamente fixados. Os dados de performance comparando entre os dois ambientes gravitacionais ainda estão para serem liberados.  

Limitações 

Um dos primeiros limitantes para a cirurgia robótica no espaço é o peso dos equipamentos atualmente utilizados. Outro limitante é o tempo de latência, sabemos que latências maiores que 300 ms podem ser desafiadoras e de alto risco. Dependendo do local onde a cirurgia for realizada serão necessários outros tipos de ferramentas ainda não desenvolvidas, como por exemplo o desenvolvimento de modalidades de inteligência artificial que possam auxiliar na autonomia do equipamento e tomada de decisões.  

Para levar para casa 

O simples desenvolvimento de uma plataforma robótica é apenas uma etapa para a complexidade de um procedimento médico ser realizado em um ambiente inóspito. Inicialmente ao ver um robô cirúrgico pensamos que a solução está dada, no entanto ainda existem inúmeros elementos a serem sanados, entre eles o aprendizado médico de operar na microgravidade. 

Autoria

Foto de Felipe Victer

Felipe Victer

Editor Médico de Cirurgia Geral da Afya ⦁  Residência em Cirugia Geral pelo Hospital Universitário Clementino fraga filho (UFRJ) ⦁ Felllow do American College of Surgeons ⦁ Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ⦁ Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Gastrointestinal e Endoscópica (Sages) ⦁ Ex-editor adjunto da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2016 a 2019) ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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