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Cirurgia26 janeiro 2026

Obstrução intestinal por aderência: sondagem nasogástrica ou nasoentérica?

Metanálise avalia o uso de sonda nasogástrica ou nasoentérica na obstrução intestinal por aderências e não mostra benefício clínico.

A obstrução intestinal é uma condição muito frequente nos pronto-atendimentos, e a aderência ou brida é a causa mais comum das obstruções intestinal de intestino delgado, correspondendo a aproximadamente 75% das causas.  

A maioria dessas obstruções apresentam evolução clínica favorável com tratamento não-operatório, sendo indicada abordagem cirúrgica em casos de peritonite, isquemia ou estrangulamento.  

Na prática clínica, indicamos frequentemente a passagem de sonda nasogástrica (SNG) e em alguns casos, sonda nasoentérica (SNE) visando descompressão da distensão gástrica e de alças intestinais. Mas será que a descompressão com essas sondas tem realmente algum benefício ou alguma melhora clara do quadro de obstrução intestinal?  

Foi realizada então uma metanálise com o objetivo de determinar se há ou não benefícios no uso de SNG ou SNE para descompressão em obstrução intestinal.   

Obstrução intestinal

Métodos 

Trata-se de uma metanálise realizada entre maio de 2023 e fevereiro de 2025, com base de dados da Cochrane Library, MEDLINE, EMBASE e SCOPUS, com estudos (ensaio clínico randomizado, coorte, caso-controle) de pacientes com quadro de obstrução intestinal que foram submetidos a passagem de SNG ou SNE.  

Foram avaliados desfechos de intervenção cirúrgica, taxas de ressecção intestinal, taxas de mortalidade, incidência de pneumonia, tempo de internação hospitalar, tempo até realimentação oral, horário do procedimento cirúrgico, incidência de vômitos, taxa de sucesso de contraste oral hidrossolúvel e qualidade de vida.  

A avaliação da qualidade foi realizada utilizando a Escala de Newcastle-Ottawa e a metanálise foi conduzida com o software RevMan Web. O intervalo de confiança foi de 95%. 

Resultados 

Após estabelecidos os critérios de inclusão e exclusão, foram obtidos 4 estudos finais, com amostra total de 1219 pacientes. Estes apresentavam quadro de obstrução intestinal e foi indicado tratamento não-cirúrgico para todos, sendo 732 pacientes com passagem de SNG ou SNE; e 487 pacientes sem uso de sondas.  

Dos 732 pacientes que foram submetidos a passagem de SNG ou SNE, 228 (31,1%) pacientes foram encaminhados ao tratamento cirúrgico posteriormente, enquanto 57 (11,7%) do grupo sem sonda, necessitaram de intervenção cirúrgica. Após aplicação de modelos de efeitos fixos, observou-se uma associação significativa entre o uso de SNG e aumento da probabilidade de cirurgia (OR = 3,00, IC 95% 2,16–4,15, p < 0,00001). 

Comparando as taxas de ressecção intestinal, que foi apresentada apenas em 3 estudos finais, 38 (6,4%) de 592 pacientes do grupo submetido a passagem de SNG apresentaram necrose intestinal ou necessidade de ressecção intestinal, enquanto 12 (3,5%) de 339 pacientes do grupo sem sonda apresentaram esta complicação ou necessidade de ressecção intestinal.  

Isso demonstra, após aplicação de modelos de efeitos fixos, que há uma associação estatisticamente significativa entre uso de SNG e risco de ressecção intestinal (OR 2,53; IC 95%: 1,28–5,00; p= 0,008). 

Em relação ao tempo de internação hospitalar, os 4 estudos foram concordantes, que houve um aumento maior no tempo de internação dos pacientes submetidos a passagem de SNG ou SNE. Não houve diferença na taxa de mortalidade entre os dois grupos. 

Discussão 

A obstrução intestinal, por ser uma condição frequente nos pronto-atendimentos, requer do médico plantonista uma abordagem holística e decisão para indicar ou não uma abordagem cirúrgica.  

Os quatro estudos envolvidos nesta metanálise foram do tipo coorte retrospectivo, o que pode ocorrer viés de seleção nas indicações de passagem de SNG em alguns pacientes e outros não, podendo interferir em alguns resultados.  

Sabemos que pacientes de alto risco cirúrgico e que apresentam obstrução intestinal, caso haja estabilidade clínica, será indicado primeiramente uma abordagem não-operatória, e isso envolve a preferência com uso de sondas, podendo evoluir para desfechos piores e até necessidade de cirurgia e aumento da internação hospitalar, conforme evidenciado nesta metanálise. 

Além disso, os 4 estudos foram feitos em países diferentes (dois estudos nos Estados Unidos da América, um estudo no Japão e um estudo na Austrália), o que pode contribuir para uma maior heterogeneidade entre as populações, e os próprios costumes de cada hospital com a condução dos casos de obstrução intestinal. 

Visando melhores resultados e mais indicadores para o real benefício das sondas em um contexto de obstrução intestinal, acreditamos que a realização de ensaios clínicos randomizados favorecem uma melhor homogeneidade da amostra estudada, para obtenção de dados significativos e reais para determinar ou não o benefício destes dispositivos. 

Mensagem prática: 

1 – As sondas nasogástricas em pacientes com obstrução intestinal por aderência podem contribuir para indicação cirúrgica, aumentar índice de ressecção intestinal e aumentar tempo de internação hospitalar. 

2 – Não há um benefício claro do uso de sondas nasogástricas para obstrução intestinal. 

Autoria

Foto de Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral  na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).

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