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Cirurgia5 março 2026

O que o cirurgião precisa saber da Síndrome de Horner após tireoidectomias?

Síndrome de Horner após tireoidectomia: incidência, fatores de risco, quadro clínico e prognóstico segundo revisão sistemática recente.

A Síndrome de Horner (SH) é classicamente caracterizada por ptose palpebral, miose e anidrose facial e ocorre por diferentes causas como tumores, trauma, isquemia, dissecção da bainha carotídea assim como pode ocorrer após tireoidectomias 

Sua ocorrência seria resultado da paralisia da via oculosimpática (VOS), a qual se origina no sistema nervoso central, percorre a cadeia simpática cervical (CSC), que por sua vez se localiza posterior a bainha carotídea e anterior ao músculo longo do pescoço e inferior à fáscia pré-vertebral e se liga aos gânglios cervicais superior, médio e inferior e finalmente chega ao olho.  

Inicialmente descrita em 1869 pelo suíço Johann Friedrich Horner e em 1915 foram descritos 2 casos de SH após tireoidectomias. Essa síndrome não resulta em prejuízos funcionais para a grande maioria dos pacientes, mas pode causar desconforto devido a razões estéticas em grau variado. O tratamento habitualmente utilizado são corticóides associados a neurotróficos, com resposta completa para a maioria dos pacientes no longo prazo.  

Trazemos esse artigo chinês publicado em 2025 na revista Frontiers in Endocrinology, periódico open-access, e que faz uma revisão em relação a sua incidência em pacientes submetidos a tireoidectomias, trazendo informações sobre o quadro clínico e características desses pacientes. 

Os autores também apresentam no artigo um caso clínico de um paciente do sexo masculino submetido a tireoidectomia total (TT) associado a esvaziamento linfonodal do compartimento central bilateral (ELCB) e esvaziamento lateral (ELL) níveis II, III, IV e V à esquerda por carcinoma papilífero de tireóide (CPT), sem nenhuma complicação identificada durante o trans-operatório. No 3° dia de pós-operatório foi observado pstose, miose e anidrose na hemiface esquerda sendo diagnosticado SH sem outras complicações relacionadas ao procedimento. 

Foi realizado tratamento endovenoso com duração de 3 dias de dexametasona 10mg/dia e 6 dias de mecobalamina 0,5mg/2 dias apresentando melhora discreta não sustentada da ptose e miose e após 2 anos de seguimento, houve persistência dos sintomas. 

Materiais e Métodos 

Revisão sistemática de artigos publicados em língua inglesa no Pubmed, Embase, Cochrane Library e Web of Science, do período de 1 de janeiro de 2000 a 1 de junho de 2025. Foram utilizados os termos “Síndrome de Horner” e “Tireoide”. 

Critérios de inclusão foram cirurgia de tireoidectomia aberta ou endoscópica, incluindo a cirurgia endoscópica da tireoide (CET), a tireoidectomia endoscópica assistida por robô (RAET) e a tireoidectomia videoassistida (VAT), e a documentação de SH após a tireoidectomia. 

Foram excluídos experimentos em animais, teses acadêmicas, revisões e intervenções outras que a tireoidectomia, como por exemplo ablação e punção de nódulos em tireoide. 

Resultados 

Foram incluídos 50 artigos no estudo, sendo 14 séries de casos e 36 relatos de casos, dos quais as 14 séries de casos e 4 relatos avaliaram a incidência de HS resultando em 40 casos de SH.  

A incidência de SH foi de 0,25% (95%IC: 0,16%, 0,35%), sendo para tireoidectomia aberta 0,41% (95% IC: 0,22%, 0,61%) e endoscópica 0,15% (95 IC: 0,01%, 0,15%). A incidência em pacientes pediátricos, os quais foram todos submetidos ao procedimento aberto, foi 1,84% (95% IC 0,52%, 4,06%), sendo maior do que entre adultos que foi 0,22% (95% IC 0,14%, 0,34%). 

A maioria, 67,5% dos casos foram por patologia maligna e os restantes 32,5% por patologia benigna da tireoide. A extensão da cirurgia foi de 40% dos casos tireoidectomia total, parcial ou subtotal sem esvaziamento cervical associados, e tireoidectomia associada a esvaziamento compartimento central (ECC) em 32,5% dos casos, e associada ao esvaziamento cervical lateral em outros 27,5% dos casos. 

O tempo de início dos sintomas foi descrito em 38 casos, sendo 84,2% (32/38) até o 3 dia de pós-operatório, sendo 11 no mesmo dia da cirurgia e o mais tardio foi no 27 dia de pós-operatório. 

Os sintomas foram descritos em 40 casos, ocorrendo ptose em 100%, miose em 92%, anidrose em 32,5%, enoftalmia em 20%, baixa de acuidade visual em 7,5%, heterocrômia (diferença de cor na íris entre os dois olhos), congestão nasal, irritação conjuntival e congestão nasal alternante em 2,5% dos casos. 

Em relação a recuperação clínica, avaliada em 36 casos, ocorreu de forma completa em 38,9% dos casos, levando de 4 dias a 11 meses para ocorrer. Resolução incompleta foi observada em 38,9% dos casos no período máximo de seguimento de 4 anos e 22,2% não apresentaram qualquer recuperação. 

Tratamento farmacológico imediato ao diagnóstico foi utilizado em 14 pacientes, consistindo em corticoesteroides e terapia neurotrófica, havendo relato de resolução completa em 7 desses casos e um dele evoluiu com fístula quilose com volumoso cisto, que ao ser puncionado e aspirado houve completa resolução dos sintomas da SH. 

Mensagem Prática 

A SH é uma complicação rara cuja incidência é próxima 0,25% dos casos de tireoidectomias. É um conjunto de fatores que resultam em lesão direta à CSC, podendo apresentar variável reversão dos sintomas ao longo do seguimento clínico, apesar do tratamento medicamentoso. 

O conhecimento pelos cirurgiões da anatomia da via oculosimpática (VOS) é fundamental, notadamente evitar lesões inadvertidas por tração, lesão térmica ou secção e nos casos em que a doença se instala justamente nessas estruturas, com necessidade de ressecções ou intensa manipulação para adequado tratamento cirúrgico da doença, é fundamental saber reconhecer clinicamente a SH e intervir. 

Assim como os pacientes são orientados antes da cirurgia de tireoidectomia sobre riscos de disfonia, hematoma e traqueostomia, cabe ao médico informar também sobre a SH, suas características e prognóstico.  

Autoria

Foto de Gustavo Borges Manta

Gustavo Borges Manta

Cirurgião de Cabeça e Pescoço pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Associação Médica Brasileira • Assistente de Cirurgia de Cabeça e Pescoço no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo - ICESP - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - HCFMUSP e no Hospital do Servidor Público Estadual HSPE-IAMSPE  • Médico cirurgião do Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE  • Pós-Graduação pelo Hospital Israelita Albert Einstein em Cirurgia Robótica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Pós-Graduação em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente em Saúde.

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Referências bibliográficas

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