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Cirurgia16 fevereiro 2026

O que mudou no manejo da coagulação e reposição de fluidos no politrauma?

Diretriz atualiza manejo pré-hospitalar do politrauma: fluidoterapia restritiva, ácido tranexâmico precoce e controle da coagulopatia
Por Jader Ricco

Ao longo das últimas décadas, muito se tem aprendido no manejo do paciente vítima de traumas graves. Umas das mais importantes mudanças nessa área foi a administração de fluidos e em relação à coagulação. Hoje em dia já se sabe que a administração excessiva de fluidos pode piorar o prognóstico dos pacientes politraumatizados, sendo a reposição com parcimônia, associada à hipertensão permissiva a recomendação atual. 

Além disso, a atenção voltada aos distúrbios da coagulação nesses casos vem se destacando e um dos protagonistas nesse cenário é o ácido tranexâmico, bem como a transfusão precoce de hemoderivados e agentes que auxiliam nos mecanismos de coagulação já no atendimento pré-hospitalar. 

O tratamento correto do paciente grave deve ser iniciado no local do acidente. Um estudo recentemente publicado revisou as atualizações das recomendações relacionadas à terapia de reposição de fluidos e manejo da coagulação pré-hospitalar em pacientes com lesões múltiplas e/ou graves. 

Blood bag hanging on IV stand in hospital room, bed visible

Métodos 

O artigo publicado na European Journal of Trauma and Emergency Surgery faz parte da atualização da Diretriz Alemã sobre o Tratamento de Pacientes com Lesões Múltiplas ou Graves e foi elaborado em conformidade com a ferramenta Reporting Items for Practice Guidelines in HealThcare (RIGHT) 

Foram levantadas questões por especialistas em relação a condutas no paciente politraumatizado, no modelo PICO (População, Intervenção, Comparação e Desfecho) e embasamento na literatura por meio de revisão sistemática nas bases MEDLINE (Ovid) e no Embase (Elsevier).  

Para cada questão PICO, avaliou-se a pertinência das condutas estabelecidas nas diretrizes prévias, definindo se seriam mantidas, revisadas, excluídas ou se novas recomendações seriam formuladas. Posteriormente, as recomendações foram definidas em uma conferência on line. 

Resultados e Discussão 

No total, 74 estudos foram elegíveis para a atualização em análise, sendo 35 novos estudos e 39 já presentes na diretriz anterior. Os pacientes dos estudos revisados eram adultos com lesões graves, principalmente com sangramento grave ou choque hemorrágico suspeito ou confirmado. 

Em concordância com o que já é recomendado, a administração de altos volumes de fluido intravenoso não deve ser realizada. O objetivo primordial da soroterapia venosa é melhorar a microcirculação e, consequentemente, a perfusão de órgãos. Essa administração deve ser feita moderadamente, visando manter uma pressão arterial sistólica de 90 mmHg — a hipotensão permissiva. Estudos retrospectivos recentes mostraram que a administração pré-hospitalar de volumes menores do que 1500 mL melhorou o desfecho dos pacientes.  

Por outro lado, no traumatismo cranioencefálico (TCE), a hipotensão permissiva não deve ser aplicada, devido ao fato de a pressão de perfusão cerebral está relacionada com a pressão arterial sistêmica. Nesses pacientes, a administração de um volume aumentado moderado apresentou efeito positivo. 

Foi citado também o princípio de estancar o sangramento quando visível como uma das primeiras medidas, atualmente conhecido como “xABCDE”. 

Em relação ao acesso venoso, quando esse não puder ser obtido em pacientes gravemente feridos, por exemplo, devido a um choque hipovolêmico e colapso venoso, o acesso intraósseo deve ser estabelecido. 

No que se refere a coagulação, um dos fatores que desempenham importante papel nessa área é a hipotermia, pois atua na função plaquetária. Portanto, é importante manter a normotermia.  

O sangramento incontrolável é uma das principais causas de morte e representa cerca de 20–40% dos óbitos. A coagulopatia concomitante, que pode ser causada pelo próprio sangramento (coagulopatia de consumo) ou desencadeada por alterações induzidas pelo trauma, exacerba consideravelmente a hemorragia. Portanto, é essencial tratar a coagulopatia já na fase inicial do atendimento ao trauma. 

O benefício da administração do ácido tranexâmico já foi demonstrado em vários estudos, como o CRASH-2 e CRASH-3 e está recomendada nas primeiras três horas de trauma e uma dose de reforço após 8 horas. Por outro lado, se a primeira dose não for administrada nas três primeiras horas, não deve fazer após esse período. Estudos mostraram que a administração desse medicamento nas primeiras três horas também reduziu o risco de morte por hemorragia em 28%, enquanto o tratamento com ácido tranexâmico administrado após três horas pareceu aumentar a mortalidade. 

A administração precoce de concentrado de hemácias e plasma são fatores nos quais os benefícios foram comprovados em vários estudos. Estudos recentes confirmam que o uso pré-hospitalar de sangue e plasma aumenta a sobrevida em comparação com o uso isolado fluidos. Entretanto, sabe-se que existem várias limitações à administração desses componentes no ambiente pré-hospitalar. Portanto o transporte do paciente ao centro de referência deve ser o mais breve possível.  

Mensagem final 

As atualizações nas diretrizes de manejo pré-hospitalar do politrauma consolidam uma mudança de paradigma, priorizando a reposição volêmica moderada e o combate agressivo à coagulopatia. O uso de ácido tranexâmico nas primeiras três horas, a prevenção da hipotermia e, quando viável, a administração de hemoderivados já no ambiente pré-hospitalar mostram-se superiores ao uso isolado de cristaloides. Contudo, tais intervenções de suporte não devem retardar o transporte rápido para o tratamento cirúrgico definitivo. 

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Graduado pela UFMG ⦁ Membro do corpo clínico do Oncoclínicas Cancer Center  ⦁ Cirurgião Oncológico no Instituto de Oncologia da Santa Casa ⦁ Cirurgião Oncológico e preceptor de cirurgia Geral na Santa Casa de Belo Horizonte e Hospital Vila da Serra.

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Referências bibliográficas

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