A Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabólica (ESPEN) é a entidade responsável por definição das diretrizes relacionadas ao suporte nutricional, sendo seguida em todo o mundo.
A última atualização ocorreu em 2023, trazendo o princípio do conceito ERAS (Enhanced Recovery After Surgery), que significa estimular uma recuperação pós-cirúrgica mais acelerada, evitando jejum prolongado, promover alimentação precoce e iniciar terapia nutricional em pacientes de risco nutricional pré-operatório. A atualização de 2025 expandiu as recomendações de 2023, incorporando novas evidências e critérios diagnósticos, baseando-se na metologia GRADE para fornecer a prática clínica.

Métodos
Visando classificar e avaliar essa nova diretriz, foi utilizado a metodologia GRADE para classificar o nível de evidência das recomendações a serem levantadas (tabela 1). Foram considerados os seguintes domínios: risco de viés, inconsistência, indiretividade, imprecisão e viés de publicação. O desenvolvimento dessa diretriz envolveu um grupo internacional e uma equipe multidisciplinar, contendo cirurgiões, anestesistas, gastroenterologistas, dentistas e nutricionistas. Para estudos oriundos de diretrizes anteriores, manteve-se o sistema de classificação SIGN, incluindo os graus de recomendação, garantindo continuidade metodológica.
Inicialmente foram propostas 48 recomendações, que foram refinadas ao longo do processo e sendo definidas como 44 recomendações no final, com alto grau de concordância entre os participantes.
A busca bibliográfica foi conduzida nas bases do PubMed e Cochrane, com publicações realizadas entre 2021 e 2024, com ampliação de temas como pré-habilitação e fragilidade. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (ECR), revisões sistemáticas, metanálises e quando necessários, estudos observacionais. Os desfechos principais foram: mortalidade, complicações gerais e infecciosas, tempo de internação, readmissões, estado nutricional e composição corporal e qualidade de vida.
| Tabela 1 – Graus de recomendação (método GRADE) | |
| A | – Nível de evidência: Muito forte (1)
– Inclui: Metanálises; revisões sistemáticas, ensaios clínicos randomizados (ECR) bem conduzidos – Resultados consistentes e confiáveis |
| B | – Nível de evidência: Moderado (2)
– Inclui: Estudos observacionais bem desenhados, ECR de qualidade intermediária – Resultados razoavelmente consistentes, aplicáveis ao público-alvo |
| 0 | – Nível de evidência: Fraca ou limitado (3 ou 4)
– Inclui: Estudos pequenos, série de casos, estudos retrospectivos – Não há estudos robustos suficientes |
| GPP | – Não há estudos realizados, baseia-se na prática clínica
– Experiência clínica acumulada – Consenso entre especialistas |
Reprodução: Graus de recomendação do método GRADE.
Principais mudanças da Diretriz de 2025 e níveis de evidência:
As principais mudanças da Diretriz da ESPEN de 2025, em relação à última de 2023, publicada em alemão, estão descritas na tabela 2 abaixo.
| Tabela 2 – Diretrizes da ESPEN para nutrição em cirurgia | ||
| Como eram (2023) | Como ficaram (2025) | |
| Recomendações | – 37 recomendações | – 44 recomendações |
| Metodologia | – Baseada em consenso e evidências, sem uso do GRADE | – Aplicação do método GRADE para classificar força de evidências e recomendações |
| ERAS | – Traz os princípios ERAS | – Traz os princípios ERAS e expande aplicação desde pré-habilitação até alta. |
| Avaliação pré-operatória nutricional | – Enfatiza avaliação nutricional e início precoce se necessário | – Inclui recomendações sobre rastreamento de sarcopenia e fragilidade; e composição corporal (TC)
– Pacientes com desnutrição severa e/ou alto risco metabólico devem receber terapia nutricional antes da cirurgia, por via oral ou enteral (GRADE A) |
| Estratégias pré-operatórias | – Evitar jejum prolongado
– Iniciar alimentação precoce no pós-operatório | – Jejum de líquidos até 2 horas e sólidos até 6 horas antes da anestesia (GRADE A)
– Considerar carboidratos no pré-operatório e otimização nutricional de 10-14 dias antes da cirurgia em pacientes de alto risco (GRADE B) |
| Suplementos específicos | – Suplementar apenas se dieta insuficiente | – Introdução de suplementos nutricionais orais e imunomoduladores (GRADE A) |
| Reinício da dieta | – Reintrodução precoce da dieta oral/enteral | – Reforça o retorno precoce da dieta oral/enteral (GRADE A) |
| Prevenção de síndrome de realimentação | – Realiza as recomendações, porém não especifica | – Realizar medidas de iniciação lenta e eletrólitos estáveis |
| Seguimento pós-alta | – Reconhece a importância do seguimento, mas n detalha | – Incentiva a continuidade do acompanhamento nutricional pós-alta |
| Cirurgias específicas | – Menciona aspectos nutricionais da cirurgia bariátrica e de transplante | – Inclui recomendações dedicadas para cirurgia bariátrica (ERABS) – GRADE A
– Otimizar estado nutricional dos pacientes candidatos ao transplante renal/hepático se desnutrição – GRADE A |
Fonte: Diretrizes da ESPEN 2025.
Mensagem prática
1 – A nutrição em cirurgia está em constante atualização e deve ser discutida sempre para aprimorar a prática clínica.
2 – O retorno à dieta precoce, abreviamento do jejum e preocupação com a sarcopenia e fragilidade óssea tem sido os aspectos principais da atualização da ESPEN 2025.
3 – A interação entre a equipe de nutrologia/nutrição com a equipe cirúrgica é essencial para desfechos favoráveis no procedimento cirúrgico.
Autoria

Rodolfo Kalil de Novaes Santos
Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).
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