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Cirurgia27 julho 2026

Neoadjuvância para colangiocarcinoma intra-hepático ressecável de alto risco

Estudo avalia o esquema GOLP neoadjuvante no colangiocarcinoma intra-hepático ressecável de alto risco e mostra ganho em sobrevida livre de eventos.
Por Jader Ricco

O colangiocarcinoma intra-hepático (iCCA) é o segundo tumor primário mais comum no fígado, respondendo por cerca de 20% dos cânceres hepáticos. É caracterizado por sua natureza agressiva e prognóstico desfavorável, com taxa de sobrevida em 5 anos inferior a 10%. Sua agressividade se justifica pela capacidade de disseminação micrometastática precoce e por taxas de recorrência superiores a 50%, mesmo após ressecção completa (R0). 

Atualmente o tratamento padrão ouro para o iCCA é a ressecção cirúrgica seguido por quimioterapia aos moldes do estudo BILCAP, um ensaio clínico randomizado, controlado, multicêntrico de fase III que estabeleceu a capecitabina adjuvante como primeira linha para pacientes com câncer do trato biliar ressecado com intenção curativa. 

Novos estudos estão avaliando a combinação de quimioterapia associada imunoterapia para o iCCA. Um exemplo dessa tendência é a neoadjuvância com gemcitabina, oxaliplatina, lenvatinibe e terapia anti-PD-1 (GOLP) para pacientes com iCCA ressecável de alto risco, que vem demonstrando resultados promissores e um perfil de segurança aceitável, como no estudo ZSAB-neoGOLP, publicado no New England Journal of Medicine em março de 2026. 

neoadjuvância no colangiocarcinoma intra-hepático

Quais foram os principais métodos? 

Estudo multicêntrico, aberto, randomizado e controlado de fases II-III conduzido por Shi et al. comparou a terapia neoadjuvante GOLP (neoGOLP) versus o manejo cirúrgico padrão em pacientes com iCCA ressecável de alto risco em 11 hospitais da China. A definição de alto se deu pela presença de 1 dos seguintes fatores:  tumor maior que 5 cm, invasão vascular, doença multifocal, acometimento de linfonodos regionais ou nível elevado de CA19-9. 

Ao todo 178 pacientes, divididos em 2 grupos, foram envolvidos no estudo. O grupo neoadjuvante foi composto por 88 pacientes submetidos a neoadjuvância com GOLP seguida de ressecção cirúrgica e capecitabina adjuvante. O grupo controle, com 90 pacientes, foi submetido a cirurgia up front seguida de capecitabina adjuvante. 

O desfecho primário foi a sobrevida livre de eventos, enquanto os desfechos secundários incluíram sobrevida global, taxas de resposta patológica e perfis de segurança. 

Principais resultados e discussão 

A análise dos resultados revelou melhor sobrevida livre de eventos com significância estatística no grupo neoadjuvância (mediana de 18,0 meses [IC 95%: 13,8–27,6] vs. 8,7 meses [7,2–12,4]; p < 0,001). 

Em relação aos desfechos secundários, a avaliação da sobrevida global em 24 meses não demonstrou melhora significativa na sobrevida global, embora tenha sido observado uma melhora numérica no grupo neoadjuvante (HR para morte de 0,43; p = 0,005). A taxa de resposta objetiva parcial foi de 55% (IC 95% 44-65) no grupo neoadjuvante. Já as taxas de respostas patológicas maior e completa foram, respectivamente, 19% (IC 95% 12-29) e 5% (IC 95% 1-11). Não houve diferença estatisticamente significativa em relação à taxa de ressecção R0 entre os dois grupos, com valores observados de 95% no grupo neoadjuvante e 93% no grupo controle. 

A análise de segurança demonstrou que o neoGOLP foi, em geral, bem tolerado. Embora os eventos adversos tenham sido mais frequentes com o neoGOLP do que no grupo controle (97% vs. 70%), eventos de grau ≥ 3 ocorreram em 28% dos pacientes — sendo 26% considerados relacionados ao tratamento — durante a fase neoadjuvante. Não foram relatados óbitos associados à neoadjuvância. 

O uso da terapia neoadjuvante têm suas vantagens apontadas em duas vertentes: No caso de pacientes com alto risco, a terapia neoadjuvante proporciona o tratamento sistêmico de uma doença oculta (micrometástases) de forma precoce, quando a carga tumoral é mínima. Do ponto de vista imunológico, a introdução do anti-PD-1 antes da cirurgia pode potencializar a apresentação de antígenos e melhorar a eficácia do bloqueio de checkpoints imunológicos. 

Perspectivas futuras 

Os resultados do estudo ZSAB-neoGOLP abre caminho para novos paradigmas no manejo de iCCA. A despeito de uma pequena amostra e curto intervalo para observação dos desfechos (16,9 meses), os dados levantados por Shi et al. somam-se a outros estudos nessa área corroborando com maiores taxas de sucesso no manejo do iCCA com a neoadjuvância GOLP. 

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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