Muito se estuda sobre as complicações decorrentes da cirurgia bariátrica, bem como suas carências nutricionais. No entanto, pouco se fala sobre estratégias interessantes para manutenção de massa muscular e saúde óssea nesse perfil de pacientes.
Recentemente, foi publicado um artigo que visou avaliar diferentes modalidades de exercício físico na preservação de massa muscular e saúde óssea em pacientes submetidos à cirurgia metabólica bariátrica (CMB). Vamos ver o que o artigo nos trouxe de interessante.

Introdução:
Apesar da eficácia da cirurgia metabólica bariátrica em promover perda de peso substancial e melhorar complicações relacionadas ao excesso de adiposidade, ela também cursa com perda de massa livre de gordura (MLG), principalmente nos primeiros 3-6 meses pós-cirurgia. Além disso, no primeiro ano também ocorre aumento do turn-over ósseo e redução da densidade mineral óssea (DMO), principalmente em colo do fêmur e quadril.
Tais mudanças podem trazer prejuízos para a saúde física e metabólica desses pacientes. A atividade física entra nesse cenário como forma de redução de massa de gordura (MG), porém como ela auxiliaria em sustentação de peso perdido e preservação de MLG ainda permanece incerto.
Os principais guidelines recomendam uma meta de pelo menos 150 min de atividade física aeróbica de moderada intesidade por semana , combinada com exercícios de resistência totalizando 300 minutos semanais. No entanto, essa recomendação é para a população geral, não levando em conta as particularidades da população pós bariátrica.
O presente estudo visou avaliar em ensaio clínico randomizado os efeitos de atividade aeróbica, resistida e combinada na preservação de MLG em pacientes pós CMB.
Metodologia:
O estudo foi conduzido entre Julho de 2022 e Março de 2024 na Universidade de Tel Aviv, com pacientes recrutados de centros de bariátrica.
Os critérios de inclusão foram: adultos entre 18-65 anos, com obesidade grau II (IMC ≥ 35 kg/m²) e pelo menos uma condição associada ao excesso de peso ou obesidade Grau III (IMC ≥ 40 kg/ m²) que eram candidatos então para CMB e que apresentavam estilo de vida sedentário.
Já os critérios de exclusão foram: doenças cardiopulmonares severas, prejuízo musculo-esquelético que limitasse atividade física, distúrbios cognitivos, uso de medicações que pudessem comprometer a saúde óssea ou muscular, CMB prévia ou dificuldade de linguagem que pudesse incapacitar o entendimento das instruções dos exercícios.
Os pacientes foram então randomizados em grupos: aeróbico, resistido, combinado e controle (recebeu cuidados básicos pós cirurgia) após serem submetidos à CMB. Os grupos foram acompanhados por 26 semanas em um programa supervisionado com sessões de 3x/semana, com aumento progressivo da intensidade.
O desfecho primário analisado foi alteração na MLG feito medida por absorciometria de raios X de dupla energia (DXA). Desfechos secundários foram: massa de gordura, densidade mineral ósseal em quadril, colo femoral e coluna lombar; dosagem de telopeptídeo carboxiterminal de colágeno tipo 1 e função física ( com teste de 6 min de caminhada e Manobra de Handgrip).
Resultados:
Dos 443 participantes elegíveis, 58 participantes foram selecionados. Eles apresentavam entre 18-65 anos, IMC médio de 41,7 kg/m² e a maioria era composta por mulheres (70%). Eles foram randomizados em grupo aeróbico (n=15), grupo resistido (n=12), grupo combinado (n=13) ou grupo controle (n=13).
O Grupo de exercícios combinados foi o que mais perdeu peso e também foi capaz de preservar mais a MLG e reduzir mais a MG quando comparados ao grupo controle. Já o grupo aeróbico foi o que mais atenuou a perda de massa óssea no quadril e teve a concentração sérica de telopeptídeo carboxiterminal de colágeno tipo 1 menos elevada quando comparado ao grupo controle. A função física melhorou de forma modesta no grupo aeróbico em relação a caminhada de 6 min, porém quanto à análise do Hand-Grip, o grupo resistido foi melhor.
Discussão:
O presente estudo visou avaliar diversos regimes de exercício físico na composição corporal, densidade mineral óssea e função física após 6 meses de seguimento de pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.
Todos os grupos apresentaram melhoras, porém o grupo de atividade combinada foi o que mais se destacou na preservação de MLG e redução de MG, enquanto o grupo aeróbico foi melhor em manutenção de BMD.
Em adição à atividade física, suplementação de cálcio e vitamina D, além de ingestão protéica diária adequada foram cruciais na preservação de massa óssea, com redução do risco de fraturas.
Como todo estudo, esse também contou com limitações, sendo a principal a pequena amostra populacional. Como pontos de forças, o estudo ser randomizado foi uma grande vantagem, bem como o detalhamento das informações de BMD, MLG e MG.
Conclusão:
Após a CMB, a combinação entre exercícios aeróbicos e resistidos melhorou a composição corporal dos indivíduos ao preservar MLG e reduzir MG, enquanto atividade aeróbica foi a mais eficaz em atenuar a perda de massa óssea.
O ensaio clínico deixou claro que são necessários mais estudos para avaliar com mais clareza quais são as melhores estratégias para promoção de saúde musculo-esquelética, metabólica e funcional em pacientes submetidos à CMB.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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