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Cirurgia28 agosto 2026

Irrigação da linha de grampeamento com solução salina na Sleeve

Ensaio randomizado avalia solução salina aquecida na linha de grampeamento da Sleeve para reduzir sangramento pós-operatório.
Por Raphael Lisboa

A obesidade é uma doença crônica, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e tem aumentado cada vez mais nos últimos tempos. Sabemos ainda que associado a obesidade, crescem junto doenças como diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono e doença arterial coronariana.  

Em contrapartida, a cirurgia bariátrica e metabólica surgiu como uma modalidade terapêutica e eficaz para a obesidade, com duração prolongada e atuação na remissão das comorbidades metabólicas. Existem várias técnicas cirúrgicas descritas, sendo a gastrectomia vertical laparoscópica (Sleeve) amplamente realizada no mundo todo, em virtude de sua facilidade de execução, e eficácia no tratamento da obesidade.  

Porém, complicações pós-operatórias como fístulas de linhas de grampeamento e sangramento tem sido descritas como eventos adversos desta técnica, exigindo estratégias alternativas para redução destas. A irrigação com solução salina aquecida é uma alterativa utilizada em cirurgias da otorrinolaringologia para redução de sangramento e há uma escassez de estudos que demonstrem o real benefício da solução aquecida para redução de sangramentos.  

Visando isso, o objetivo de um estudo sobre o tema foi avaliar a eficácia da irrigação de solução salina aquecida (37 a 40°C) na linha de grampeamento da gastrectomia vertical laparoscópica antes da omentopexia e sua relação com sangramento pós-operatório. 

solução salina na sleeve

Métodos utilizados 

Trata-se de um ensaio clínico, prospectivo, randomizado e simples-cego, sendo conduzido em dois centros de cirurgia bariátrica de alto volume na cidade do Cairo, Egito, entre dezembro de 2024 e junho de 2025.  

A amostra foi definida com 200 pacientes, com idades entre 18 e 60 anos, com índice de massa corporal (IMC) superior a 35 kg/m² associado a uma comorbidade; ou IMC maior que 40 kg/m²submetidos a gastrectomia vertical laparoscópica. No estudo, 100 pacientes receberam irrigação com solução salina aquecida a 37-40°C diretamente na linha de grampeamento e 100 pacientes receberam a mesma solução salina, porém em temperatura ambiente, entre 22 e 24°C. Ambos os grupos foram submetidos em seguida à omentopexia utilizando o fio PDS 2-0.  

O desfecho primário avaliado foi a ocorrência de sangramento em até 48 horas, que necessitava de transfusão ou intervenção endoscópica; redução da hemoglobina no primeiro dia pós-operatório maior ou igual a 2 g/dl ou débito pelo dreno maior que 150 ml de conteúdo sanguinolento nas primeiras 24 horas.  

A relevância estatística foi definida com valor de p < 0,05. O estudo foi registrado no ClinicalTrials.gov. 

Principais achados 

O grupo submetido a irrigação salina aquecida entre 37 a 40°C apresentou um tempo de hemostasia menor que o grupo controle (3,9 minutos versus 6,1 minutos; p < 0,001). Em concomitância, procedimentos adicionais definidos como manobras hemostáticas (uso de clipes metálicos ou coagulação com pinças bipolares) apresentou menor necessidade de uso no grupo submetido a irrigação salina aquecida (13% versus 29%; p = 0,01).  

Esses achados confirmam que a irrigação morna melhorou a visibilidade e a eficiência intraoperatórias. O desfecho primário, que avaliou o sangramento pós-operatório em até 48 horas, também favoreceu ao grupo da irrigação salina aquecida (5% versus 15%; p = 0,02), com redução do risco relativo de 64% (RR = 0,36; IC 95% 0,14–0,90).  

Outros fatores avaliados no desfecho primário como queda da hemoglobina (1,28 g/dl versus 2,06 g/dl; p < 0,001), volume de drenagem em 24 horas (82 ml versus 128 ml; p < 0,001 e sangramento persistente maior que 12 horas (7% versus 20%; p = 0,01) foram estatisticamente menores no grupo irrigação salina aquecida.  

O tempo de internação hospitalar também apresentou significância estatística no grupo irrigação salina aquecida (1,3 dias versus 1,6 dias; p = 0,006). Apesar de não apresentar relevância estatística em relação à reoperação, o grupo submetido a irrigação salina aquecida não necessitou de nenhum procedimento cirúrgico adicional. Não houve necessidade de transfusão sanguínea intraoperatória em nenhum grupo. Não houve diferença estatística também na ocorrência de náuseas e vômitos, readmissões ou fístulas (p = 0,18). 

Pontos de discussão 

O estudo em questão demonstra que a irrigação salina aquecida entre 37 e 40°C, em comparação com irrigação em temperatura ambiente, diretamente na linha de grampeamento da gastrectomia vertical laparoscópica, apresentou melhores resultados na redução de sangramento e eficácia na hemostasia.  

Outro ponto positivo foi que a amostra de 200 pacientes foi bem selecionada entre os pacientes, permitindo características semelhantes entre os grupos, o que reduz o viés de seleção e aumenta a confiabilidade do estudo. 

A irrigação salina aquecida pode contribuir para melhor visualização da linha de grampeamento, facilitando a identificação de pontos de sangramento, com controle hemostático mais efetivo, antes de realizar a omentopexia. Além disso, é uma solução de baixo custo financeiro, e não exige material adicional, o que pode contribuir para outros centros de cirurgia bariátrica que não disponibilizam de maiores recursos. 

É importante destacar que apesar da eficácia descrita da irrigação salina aquecida ao evitar reintervenção cirúrgica em comparação com a solução em temperatura ambiente, este dado não apresentou relevância estatística, sendo concluído que a irrigação salina aquecida não reduz efetivamente a necessidade de reintervenção cirúrgica.  

Além disso, todos pacientes foram submetidos a omentopexia em seguida, que é uma técnica de sutura, que pode contribuir para hemostasia, e não há uma comparação das soluções salinas em pacientes que não realizam esta complementação. 

Apesar destas limitações, o estudo traz uma comparação simples, sem gastos financeiros, reprodutível e factível para incorporação do dia a dia no centro cirúrgico. 

Mensagem prática 

1 – A irrigação salina aquecida entre 37 a 40°C, na linha de grampeamento do Sleeve, antes da omentopexia, apresenta benefício na redução do sangramento pós-operatório. 

2 – São necessários estudos complementares que não utilizem omentopexia para determinar o benefício isolado da solução aquecida. 

Autoria

Foto de Raphael Lisboa

Raphael Lisboa

Estagiário de conteúdo na Afya. Graduando em Jornalismo pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

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