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Cirurgia13 junho 2026

Imunoterapias no câncer gástrico: um novo tipo de conduta?

Câncer gástrico dMMR/MSI-H pode ter respostas duradouras à imunoterapia, mas omissão cirúrgica ainda exige cautela.
Por Felipe Victer

O adenocarcinoma gastroesofágico (AGE) permanece como um desafio oncológico, consolidando-se como a quinta causa global de mortalidade por neoplasias. Na oncologia moderna, a identificação da deficiência de reparo DNA(dMMR) e a instabilidade microssatélites (MSI-H) surgiram com grande relevância, visto que esses biomarcadores são preditores de resposta aos inibidores de checkpoint imunológico (ICI).

Um artigo publicado na JAMA Surgery em abril de 2026, investiga a eficácia da imunoterapia neste subgrupo molecular específico. Embora a dMMR incida em apenas 5% a 10% dos casos de AGE, a escassez de dados de “mundo real” justifica esta análise para sistematizar trajetórias terapêuticas e avaliar a durabilidade da resposta.

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Materiais e métodos

Uma coorte retrospectiva e observacional realizada no MD Anderson Cancer Center entre junho de 2020 e agosto de 2025.Os desfechos primários e secundários incluíram a sobrevida global (SG), melhor resposta objetiva (BOR) nos casos com doença estádio IV, resposta patológica completa (pCR) nos casos submetidos a ressecção cirúrgica e resposta clínica completa (cCR) em paciente que por algum motivo não foi operado.

A metodologia seguiu rigorosamente as diretrizes STROBE e o sistema de estadiamento da 8ª edição do American Joint Committee on Cancer (AJCC), assegurando a padronização na classificação clínica e patológica dos pacientes avaliados.

Resultados

Ao total 3316 pacientes foram diagnosticados com AGE e 1638 com realizaram exame de imunohistoquimica para os marcadores, sendo estes encaminhados para análise. A coorte apresentou idade média de 62,5 anos (DP 12,8), com predominância do sexo masculino (73,5%).

A prevalência de dMMR foi de 5,1%, apresentando variação estatisticamente significativa conforme a localização anatômica: 9,5% no câncer gástrico versus 3,0% no esofágico e 3,3% na transição gastroesofágica (p < 0,001). Os regimes utilizados como ICI eram a combinação de nivolumabe e ipilimumabe ou monoterapia com pembrolizumabe.

A sobrevida global em 3 anos foi superior no fenótipo dMMR comparado ao pMMR(sem deficiência de reparo), tanto em pacientes submetidos a ressecção com intenção curativa (84,7% vs. 72,3%) quanto naqueles sem intervenção cirúrgica (68,5% vs. 32,3%). Na doença metastática, a BOR foi de 61,5% (IC 95%, 41,4-87,8). No cenário locorregional, a taxa de pCR/cCR atingiu 52,2%.

Entre os 10 pacientes submetidos à cirurgia, todos alcançaram ressecção R0, com 30% de pCR. O tempo para resposta completa variou entre os regimes: 2 a 4 ciclos para nivolumabe/ipilimumabe (definidos como ciclos de 6 semanas) e 6 a 12 ciclos para pembrolizumabe (ciclos de 3 semanas). Com um seguimento mediano de 26,0 meses, não houve recorrência entre os respondedores completos. A síndrome de Lynch foi mais frequente em respondedores (17,9% vs. 0%),

Discussão

Os dados demonstram que a terapia baseada em ICI induz respostas robustas e duradouras no AGE dMMR, sugerindo uma mudança de paradigma em direção ao manejo não operatório em pacientes que atingem cCR.

Tais achados de “mundo real” alinham-se aos ensaios NEONIPIGA e INFINITY, embora a taxa de não-responsividade em aproximadamente 48% da coorte locorregional sugira uma heterogeneidade biológica subjacente que vai além do status de dMMR.

Um ponto de debate reside na duração ideal do tratamento; a diferença no número de ciclos para resposta entre nivolumabe/ipilimumabe e pembrolizumabe levanta a questão se a eficácia decorre da dualidade do bloqueio ou do tempo absoluto de exposição.

As limitações incluem o desenho retrospectivo de centro único e o possível viés de observação na avaliação da cCR. Ademais, as diretrizes NCCN 2025 mantêm cautela sobre a omissão da cirurgia. Conclui-se que, apesar do potencial para preservação de órgãos, a dMMR não é um biomarcador infalível.

Para levar para casa

Sem dúvida ainda não sabemos qual o tratamento ideal para o câncer gástrico. Atualmente o melhor tratamento, aquele com maiores taxas de sobrevida, está baseado na ressecção acompanhado ou não de terapia sistêmica dependendo de cada caso. No entanto, não podemos fechar os olhos para as novas tecnologias que podem alterar o rumo do tratamento, porém ainda estamos longe de uma mudança radical de conduta, porém acredito que ela um dia chegará.

Autoria

Foto de Felipe Victer

Felipe Victer

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Cirurgia Geral (2007) e Cirurgia Geral - Programa Avançado (2009) pela mesma instituição. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sobracil. Coordena área de esôfago/estômago com ênfase em cirugia minimanente invasiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.

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